Carta à Comunidade Transpessoal

CARTA À COMUNIDADE TRANSPESSOAL

Por Oscar Ichazo

O propósito dessa carta é esclarecer o equívoco grosseiro e superficial que a senhora Helen Palmer apresenta em sua carta intitulada A Heresia do Eneagrama, escrita com a intenção de desacreditar a Escola Arica e a mim. No intuito de justificar sua apropriação indébita de materiais de propriedade da Escola Arica, a Sra. Palmer descreve a si mesma em sua carta como uma cientista martirizada, atacada por uma igreja obscurantista que acredita em arcanjos e em outras coisas e que a tornou uma herética pronta para ser queimada em público, como uma nova Savonarola, uma imagem portentosa, mas que, absolutamente, não confere com a realidade. Em sua carta, o argumento da Sra Palmer está baseado em dois pontos:

1- Além daqueles nomes no Eneagrama das Fixações, ela não vê nenhuma outra contribuição de minha parte, porque as minhas afirmações basicamente (assim ela presume) provêm das idéias de Gurdjieff;

2- Eles (os autores dos Eneagramas) colocaram a teoria Arica dos eneagramas em uma base científica, fazendo-a aceitável e respeitável pela comunidade científica.

O primeiro ponto não é apenas o centro da carta, mas também o ponto central em sua argumentação durante o julgamento do honorável Juiz Robert P. Patterson, do Tribunal Distrital americano de Nova Iorque. Em um outro ponto de sua carta, para reafirmar sua posição, ela cita A Bibliografia Anotada da Fundação Gurdjieff: “O fundador boliviano da Escola Arica expõe seu sistema, um treinamento psicológico popular que se baseia — sempre sem o devido reconhecimento — em diversas idéias de Gurdjieff, especialmente o símbolo do eneagrama”.

“[…] Utilizando idéias como as dos três centros e da essência e personalidade e pretendendo ter encontrado o ‘eneagrama’ antes de ler Gurdjieff, Ichazo acredita ser ‘a raiz de uma nova tradição’”.

Como disse antes, entrei em contato com as idéias de Gurdjieff no início dos anos 50 e, inicialmente, me inteirei sobre suas idéias no livro de Ouspensky, Em busca do miraculoso. O que observei então parece ser interessante destacar agora, que o livro inteiro não apresenta qualquer idéia nova sobre qualquer coisa. Para mim ficou evidente que, apesar de não haver dúvida sobre a qualificação erudita de Ouspensky, nós o vemos apresentando idéias muito velhas, tão incrivelmente bem conhecidas, como se estivesse produzindo um novo evangelho cheio de novidades maravilhosas, como ele mesmo reconhece ao dizer: “Eu percebi que tinha encontrado um sistema completamente novo de pensar, superando tudo o que conheci anteriormente”. Quanto a mim, ao contrário, eu o via como um cômico, o que disse então para os meus amigos que estavam envolvidos no assunto de O quarto caminho. As “idéias” principais são a existência de uma essência e de uma personalidade; a essência é o nosso ser real com o qual nascemos, o que Gurdjieff qualifica de uma maneira muito difusa, como nosso próprio corpo natural, nossa saúde, ou o que é essencial e nos acompanha ao longo desta vida e além. A personalidade é a parte que aprende no mundo por imitação, associação e educação, criando uma couraça protetora ao redor da essência e assim suplantando-a. De tudo o que eu conheço, essa é uma idéia das mais antigas e é também a base dos Vedas, onde a essência é conhecida como atman e a personalidade como jiva, que circunda a essência (atman) e se auto-impõe (jiva) como a única realidade verdadeira. O Katha, Mandukya e o Chandogya Upanishads são baseados na mesma premissa. A filosofia Shamkara também é baseada nessa premissa, que é fundamental no Shaivaismo do Cachemir, além de também ser a premissa básica do trabalho do Ramakrishna, Sri Aurobindo e Meher Baba. Sem a concepção da mente absoluta e da mente relativa (essência e personalidade), não haveria budismo, jainismo, hinduísmo e Taoísmo, ou qualquer doutrina mística.

Isso também é verdadeiro para todas as doutrinas filosóficas. Por exemplo, a observação de Platão sobre uma parte essencial que contempla formas puras (arquétipos) diretamente e uma persona que aprende no mundo por imitação (mimésis) e educação é uma idéia platônica fundamental. Eu posso continuar e continuar. É simplesmente ridículo atribuir a Gurdjieff essa idéia essencialmente universal, como sendo exclusivamente sua, mas tal é como parece ser claramente entendido pelos gurdjieffianos, porque Ouspensky a apresenta em seu livro como uma proposição destacada para ser ouvida como se realmente o fosse pela primeira vez.

A segunda idéia importante de Gurdjieff é o que ele seriamente chama de três cérebros: um na cabeça, um no peito e um no abdômen. Esses centros cerebrais governam a máquina humana e tornam o homem mecânico, que seria então uma espécie de robô. Seguindo esses centros cerebrais, astutamente ele chega à conclusão da existência de três tipos de homem: um centrado no ventre onde estão os instintos; um no coração, comandado pelas emoções; e o terceiro tipo, o intelectual, controlado pelos pensamentos. Ele também especula sobre um quarto tipo possível de homem, que poderia utilizar os três cérebros simultaneamente. É imensamente embaraçoso, mas tudo o que Gurdjieff fez foi repetir, quase que literalmente e por meio de um estilo terrível, a hipótese fundamental do reconhecido diálogo de Platão em A República, nomeadamente os três centros do homem, distribuídos no corpo físico: cabeça, coração e abdômen, dos quais derivam os três tipos de homem, produzindo três tipos de classes sociais e um quarto tipo de homem que seria educado especialmente para funcionar com o conhecimento completo dos três outros tipos e então gerando hábeis filósofo-governantes, que teriam sido instruídos em tarefas e trabalhos físicos, na coragem emocional e na têmpera do guerreiro e nas habilidades intelectuais do administrador. Mais tarde, essa doutrina aparece na doutrina estóica do homem dos três centros, que os estóicos chamavam nous, localizado na cabeça, zimos baseado no coração, e epizimos situado no abdômen.

Para exemplificar a relação do envolvimento dos três centros no homem, Platão utilizou em Fédon uma de suas alegorias mais famosas, que é a imagem de uma “charrete alada” sendo puxada por dois cavalos (um bom, outro mau) e dirigida por um cocheiro. Com essa alegoria, Platão representa a inter-relação e a dependência, difíceis e contraditórias, entre o centro físico (charrete), o centro emocional (os cavalos) e o centro intelectual (o cocheiro). Essa alegoria encontra-se repetida em a História de belzebu com uma “charrete puxada a cavalo”, substituindo, para todos os propósitos, a alegoria de Platão da “charrete alada”, apresentada como se fosse uma criação espontânea da sabedoria de Gurdjieff. Isso é ridículo, para dizer o mínimo.

Essa imagem é também conhecida no Vedanta, onde está baseada na mesma divisão do homem como mostram as Leis de Manu, que estabelecem a divisão das três castas mais os Sudras (extracastas). Também no Bhagavad-gita quando Krishna instrui Arjuna sobre a doutrina dos três gunas, descrevendo os três tipos de pessoas, comandadas por desejos instintivos (tamas), ou por suas emoções (rajas), ou por seu intelecto (sattva) e finalmente os líderes reais, o quarto tipo de homem que combina corpo, emoção e mente pelo imperativo do seu dever espiritual. O Budismo também está baseado sobre o trabalho no corpo (instintos), fala (emoções) e mente (intelecto). Então, qual é a novidade de Gurdjieff?

A terceira idéia poderosa de Gurdjieff é apresentada como o “Raio da Criação” dividido em sete esferas, indo do Sol Absoluto à Lua. E novamente Ouspensky (seguido pelos notáveis gurdjeffianos M. Nicoll, A. R. Orage e J. G. Bennett) nunca relaciona as “idéias” de Gurdjieff às fontes bem conhecidas dessas doutrinas, as quais floresceram nos tempos sumerianos (2000 a.C.) e foram herdadas pelos Magos caldeus, que desenvolveram uma doutrina e uma ciência astrológica vastas, que em seqüência produziu uma grande Religião e Cosmologia Astral. Como sabemos, Pitágoras (550 a.C.) aprendeu esse padrão de sete partes com os Magos caldeus, com quem conviveu e aprendeu por muitos anos, antes de fundar sua própria escola em Croton. É também muito sabido que Pitágoras ligou o caminho de sete partes do “Raio da Criação” às sete notas musicais da escala pitagórica, em que a primeira nota “Dó” representa o Absoluto, e as notas sucessivas da escala terminam na escala baixa do “Dó”, representando a criação inferior. Pitágoras chama isso de “Música das Esferas”, e essa interpretação pitagórica do cosmo é a base da astronomia de Ptolomeu, unindo assim a religião e a ciência de forma poderosa. Porque na Religião Astral o destino humano estava inscrito indelevelmente nas estrelas; a doutrina de “Soleria” (salvação) se tornou necessária e crucial, desde que era então possível transcender o octeto material ao obter a salvação por intermédio do desenvolvimento de um “corpo astral” durante a vida, que poderia sobreviver ao corpo físico corrompido e continuar com uma vida imortal no “corpo astral”, ascendendo a um correspondente paraíso, de acordo com a vibração da pureza e da bondade do “corpo astral”. Nesse sistema, as vibrações mais altas tornar-se-iam aquelas do Sol Absoluto. Essa heliolatria produziu religiões monoteístas como o Sol Invicto e Mithra e, como podemos ver na teologia solar Juliana em seu famoso Hino ao Sol, a salvação astral era de fato libertar-se do peso e da matéria grossa do corpo e ascender à “vida perene”. Como podemos ver, essas religiões eram poderosamente emocionais e realmente modelaram o mundo antigo até a chegada de Platão com sua doutrina de que existia um mundo transcendental de idéias e de formas puras (arquétipos), além de nosso mundo material, ao qual nosso ser essencial pertence desde o início. Assim, constatamos que a doutrina da “anamnesis”, ou conhecimento verdadeiro, é realmente uma “recordação” do mundo perfeito das idéias (arquétipos). Novamente o conceito da “essência e personalidade”.

O Estoicismo, fundado por Zeno logo após a Academia de Platão, se tornaria de grande importância, porque sintetizou o mundo transcendental das formas puras de Platão com as proposições “científicas” da velha Religião e misticismo Astral. A conseqüência foi a noção estóica de que o caminho para transcender a carne estava nos exercícios internos da “Vontade”, produzindo uma força moral que nos tornaria capazes de resistir a qualquer circunstância da vida e que seria sustentada por uma visão moral “imparcial”, apatia, que considera todas as circunstâncias como perecíveis e conseqüentemente indesejáveis. O homem superior produz, pelo exercício dessa “Vontade”, a concentração do material que aperfeiçoa o “corpo astral”, que sobe pelas sete esferas da matéria até o Ogdoat, ou a oitava esfera dos “seres perfeitos”. Então, os estóicos combinavam a doutrina da “imanência”, ou “Deus entre o Cosmo” da Religião Astral, com suas sete esferas e sete vibrações correspondentes e relacionadas às sete notas musicais, com o transcendentalismo platônico ou “Deus além do Cosmo”. Conseqüentemente, para trabalhar e produzir resultados, era necessário estabelecer escolas com regras monásticas de disciplina severa ou disciplina estóica, “disciplina arcani”. Era também necessário estar emocionalmente afinado com o transcendental, simpatia, e com o amor à humanidade, filantropia, afirmado como o principal atributo de Deus. Tudo isso poderia temperar alguém em uma vida moral e produzir, de acordo com o Sextus Empíricus, um conhecimento de Deus, hennoia, tornando possível encontrar a transcendência. Isso foi intensificado com a visão pessimista Órfica do homem como um pecador que não se arrepende, que é uma visão que emergirá 900 anos mais tarde com As Confissões de Sto. Agostinho. Os neopitagóricos do primeiro século d.C. intensificaram essa “consciência do pecado” como uma obrigação para adquirir pureza de mente e redenção, que deveria ser seguida por uma vida reformada, baseada no desempenho moral de dever puro, cujo mais alto expoente encontra-se nas Meditações de Marco Aurélio. Como disse, essas religiões eram profundamente emocionais como podemos ver na “mania”, no templo de Apolo em Delfos ou no “entusiasmos” das Bacantes Dionisíacas. Esse movimento poderoso foi promovido pelo filósofo estóico Posidônio, que se transformou na principal figura do Médio Platonismo (300 a.C. a 300 d.C.). Ele declarou que a maioria das almas mortais, em razão de suas baixas vibrações, ascenderia da Terra à esfera da Lua, que era verdadeiramente “alimentada” pela exalação da região terrena. Esse lugar, conhecido como “o cone escuro da lua”, era onde as almas-carcaças, baixas e demoníacas, ficariam presas por eternidades. O romano Sêneca também falou da imortalidade astral e da entrada das almas no “aeterna requies”, obtendo o mais alto éter e “sofrendo uma mudança oceânica” enquanto adquiriam libertação dos elementos originais da matéria. Posso continuar e continuar.

Eu fico a pensar por que será que todos os gurdjeffianos parecem ignorar que estes três conceitos fundamentais das “duas mentes” (essência e personalidade ou as mentes absoluta e relativa); a doutrina dos “três centros do homem” relacionada ao seu corpo físico, às suas emoções e ao seu intelecto; e o “Raio da Criação”, formado por vibrações sucessivas e atrativas, são os conceitos universais mais comuns e básicos. Algum “hiato” nas mentes de gurdjeffianos, como a Sra. Palmer, induz a acreditar e a afirmar tão enfaticamente que esses postulados mais universais e básicos pertencem todos a Gurdjeff e foram originalmente trazidos à atenção do Ocidente exclusivamente por ele. Isso é apenas incrível e estou tão preocupado quanto atônito. Gostaria de dizer claramente que não há nenhuma “idéia” original de qualquer importância no trabalho inteiro de Gurdjieff. No começo dos anos 50, li a História de belzebu e achei que Gurdjieff era de fato, não somente medíocre, mas também um péssimo escritor. Além da falta de idéias para a composição ou desenvolvimento de seus temas, faltam-lhe formas retóricas. Com isso, ele zomba de Aristóteles, Quintiliano e Cícero. Os seguidores de Gurdjieff lhe dirão que o propósito do autor era torná-los difíceis de entender e que se deveria lê-los três ou quatro vezes se fosse inteligente, porque isso era parte do exercício. Ótimo, eu disse, que os escritos de Gurdjieff são difíceis de entender — eles não estão brincando — mas eu tenho que acrescentar: entender o que? Novamente aqui está a história das “duas mentes”, os “três centros” e a “lei do sete”, e Gurdjieff mais tarde postula a idéia de que tudo é abrangido pelo tempo, o impiedoso Heropass, para usar uma expressão de Gurdjieff. Isso soa tal qual a heresia zoroastriana do Zurvanite, que faz do tempo a união final das duas forças cósmicas do Ohrmazd e Ahriman. Esse conceito é um ponto de vista herético, porque nega a transcendência suprema de Deus, Um e Único, entendido pelos zoroastrianos ortodoxos como Ahura Mazda (tudo isso projetado na História de belzebu com palavras impronunciáveis, como “Aieioiuoa”, “Kerkoolnonarnian”, “Sekronoolanzaknian”, Hrha-hartzaha”, “Krhrrhihirhi”, “Soloohnarahoona” e “Prtzathalavr” inventadas pelo curioso humor de Gurdjieff, que certamente soa como uma explosão entusiástica de poesia “Da-da”). Tudo isso seria grandioso se ele tivesse nos dado algo novo. O que de fato ele não fez.

Como disse antes, no início dos anos 50 fui introduzido às danças ou movimentos sagrados de Gurdjieff. Nessa época, também me familiarizei com os métodos de Dalcroze e Steiner, e não tinha qualquer dúvida sobre a habilidade superior desses métodos de transformar a coordenação de movimentos em uma forma de meditação profunda. Entretanto, os “movimentos sagrados” gurdjiefianos me pareceram como sendo completamente primários, muito exteriores e superficiais, não importava que os dançarinos tentassem permanecer despertos até o ponto da histeria. Ninguém parecia apreciá-los. Tudo fluía em uma atmosfera de funeral, em que a seriedade extrema parecia ser o vínculo comum. Com tal atitude, não há nenhuma surpresa que todos eles parecessem estar a ponto de explodir. É tão bem conhecida, que é “uma lei de ferro”, você não pode concentrar-se internamente se não relaxar o seu corpo, as suas emoções e a sua mente completamente, seja por meio de uma posição estática (asana), ou por meio de movimentos perfeitamente coordenados, permanecendo constantemente consciente do centro de equilíbrio e energia, como nos movimentos do T’ai Chi Chuan. Em qualquer caso, para obter concentração espiritual, as tensões são evitadas e as construções mentais, dissolvidas. Isso não vi nas apresentações gurdjieffianas, pelo contrário, aquela aparência de seriedade em suas faces e em suas atitudes pesadas pareciam produzir sua própria e incontrolável tensão.

Como sabemos, uma das mais importantes noções nas “idéias” de Gurdjieff era a existência da “arte objetiva”, que ele define como sendo uma arte que pode nos afetar psicossomaticamente de uma maneira muito precisa. Ele explica em seu livro, Encontros com homens notáveis, como um de seus companheiros aprendeu, num monastério do Afeganistão, a impressionar uma platéia inteira tocando certas notas no piano. Gurdjieff afirma pessoalmente que viu uma planta crescer desde a semente em trinta minutos, durante um canto de música antiga hebraica. Ele também fala de posições e de um alfabeto básico de posturas e de movimentos que correspondem às danças sagradas que viu no “Monastério Sarmoung”, na Turquia e no “Monastério Olman”, no norte do Himalaia. E diz também que há templos e monumentos que poderiam nos impressionar de uma forma muito particular.

Também temos a recordação de Ouspenski sobre sua impressão ao visitar o Taj Mahal, em seu livro O Novo modelo de universo. Novamente, se Gurdjieff e Ouspenski queriam aprender sobre arte objetiva, certamente não haveria necessidade de ir tão longe e a lugares tão exóticos, pela simples razão de que o debate e a descoberta da “arte objetiva” foram um dos principais tópicos da filosofia greco-romana. A noção de que a música tocada de certas maneiras produz reações psicossomáticas era bem conhecida no antigo Egito, como podemos ler em Heródoto, mas foi Pitágoras quem examinou a música e os seus efeitos em sua teoria da harmonia. É necessário não esquecer que a música foi considerada a inspiração geral da arte produzida pelas nove Musas, enquanto que a arquitetura e escultura foram vistas como representações paralelas dessa “inspiração musical”. A fundamentação da arte objetiva se originou nas descobertas dos quatro modos fundamentais da música, ou seja: Dórico, Frígio, Lídio e Eólio. A importância dessa teoria pode ser encontrada nas Leis de Platão, nas quais ele sustenta que a música tem que ser controlada formalmente porque ela pode produzir reações psicossomáticas automaticamente, e alguém poderia ser induzido por ela a um estado de elevação e êxtase místico (modo Dórico), ou a estados de entusiasmo, de voluptuosidade e de luxúria (modo Lídio).

Platão também observa que a música combinada com exercícios e movimentos rítmicos, como aqueles utilizados nos festivais dos grandes deuses em seus templos, era uma parte fundamental do currículo educacional porque podia cultivar a integração de pensamentos, emoções e movimentos. Essa idéia foi tomada diretamente por Rudolf Steiner na sua Eurythmics e também por Dalcroze, e inevitavelmente nos lembra das danças sagradas tricentradas de Gurdjieff. Mas foi Zeno de Cítium, o fundador do estoicismo, que suplantou as restrições de Platão e admitiu todos os modos musicais como partes integrais da música. Posteriormente Cleantes e Crisipo estudaram os modos correspondentes aos sete passos do “Raio da Criação”, como encontramos na síntese hepta de Ptolomeu: hipodórico, hipofrígio, hipolídio, dórico, frígio, Lídio e mixolídio (Latim).

Como disse, os modos foram descobertas de tal importância, que foram atribuídos aos deuses e a certos heróis lendários. Eles, junto com as danças sagradas, eram as partes centrais e mais emocionais dos cultos e dos festivais, tais como nos mistérios de Eleusis e samotracianos; mas foi nos ritos da Grande Mãe e seu amado Átis que os cânticos litúrgicos atingiram a mais alta sofisticação. Átis, como Dionísio, Adônis, Jesus e Hércules, foi gerado diretamente pela união de Deus com uma virgem humana e, como todos eles, morreu e ressuscitou. Os ritos da Grande Mãe (Cibele) foram introduzidos na Grécia no século V a.C. e mantiveram a sua enorme popularidade até o colapso do mundo antigo, quando todas as liturgias, sacramentos, sistema sacerdotal com suas túnicas, capas e mitras (Gr. mitra) foram transferidos em bloco para o cristianismo, a nova religião oficial do Império Romano, junto com todo o gosto por pompa, rituais e procissões noturnas carregando ídolos em seus ombros protegidos por suntuosos dosséis. De fato os sete modos antigos foram diretamente incorporados nas igrejas Ortodoxa, Cóptica, Armênia e Cristã romana. Os modos podem ser encontrados na grande Liturgia Judaica e na Igreja Ortodoxa primitiva, que evoluíram a partir dos modos bizantinos e finalmente, nos cantos gregorianos da Idade Média. Em razão de sua enorme importância, eles foram codificados, e como todos nós já escutamos alguma vez a liturgia judaica, a ortodoxa ou os cantos gregorianos, não há dúvida sobre a eficiência dessa antiga e codificada “arte objetiva”. Posteriormente, encontramos a força total dessa arte nos madrigais e nas missas dos grandes compositores no início da Renascença como Palestrina, Victoria e Lassus e depois nos grandes compositores franceses Rameau, Couperin e no compositor italiano Lully. A grande Missa em B menor de Bach é um exemplo supremo dessa arte que reaparece no Réquiem de Mozart, em Stabat Mater de Rossini, em Parsifal de Wagner, no Martírio de São Sebastião de Debussy e em La Sacre de Stravinski, que foram concebidas com parâmetros semelhantes e temos, mais recentemente, a ópera Wozzeck de Alban Berg, cuja atonalidade é concebida como um produto dos modos clássicos. O que estou dizendo é que as noções sobre “arte objetiva” são terrivelmente bem conhecidas como no exemplo do sistema de proporções da “Média de Ouro” que, como sabemos, foi usada no Partenon de Atenas e no templo de Ártemis em Éfeso. É também conhecido que as proporções de um quadrado perfeito coberto por uma cúpula, produzem uma impressão específica de elevação mística e assim foram as formas preferidas dos templos monumentais da Grande Mãe, no antigo estilo dos monumentos persas, como no túmulo de Ciro em Persépolis. Podemos ainda ver esta forma no Panteão romano e nos dois maiores templos e exemplos da “arte objetiva” de sempre, o Haggia Sophia (550 d.C.) e a Mesquita Suleiman (1550 d.C.) em Istambul. Podemos observá-la também em algumas igrejas Ortodoxas, e foi também o plano original de Michelangelo para a catedral de Roma, reformada e arruinada por Bernini, que destruiu as proporções das relações equacionais dos quatro lados com o centro. O Taj Mahal foi desenhado pelo arquiteto Ustad ‘Isa, inspirado por Sinan, o construtor da Grande Mesquita Suleiman que por sua vez foi influenciado por Filippo Brunelleschi e Michelangelo, adeptos da Escola de Marsílio Ficino, o grande filósofo florentino que reavivou a estética clássica como ela pode ser encontrada em todo o movimento estóico. Parece-me que Gurdjieff ouviu sobre esta “arte objetiva” com pouca ou nenhuma compreensão, porque quando escutamos a música que ele ditou ao Senhor Hartmann, que fez os acompanhamentos das melodias, concluímos que ele não tem idéia de composição, porque não há jogos de harmonia, variação ou critérios de formas modais. De fato elas são melodias muito pobres e primárias, a que foram dados nomes impressionantes como Hino de um Grande Templo, Hino ao Criador Final, Afirmação Sagrada, Contestação Sagrada e Reconciliação Sagrada, e são tocadas com pianíssimos redundantes ou marteladas fortíssimas, que não levam a parte alguma e me lembram do grande erro de prover um fedelho com um tambor de lata e agora todos têm que escutá-lo. Mas, de forma alguma essas melodias gurdjieffianas, que flutuam entre sentimentalismo e pomposidade, são “arte objetiva”.

Em síntese, embora tenha passado por todo o material de Gurdjieff, bem como por toda a literatura importante sobre ele, jamais cheguei a uma “idéia” a que pudesse chamar de um aporte único de Gurdjieff. Antes de lê-lo, encontrei todas as mesmas idéias nas tradições Pitagórica, Platônica, Estóica, Hermética, Gnóstica e Cabalista que continuam a se desenvolver na cultura ocidental pela simples razão de que elas são todas, obviamente, postulados básicos. Mesmo assim, eu quero esclarecer a distinção entre a teoria Arica e as “idéias” de Gurdjief sobre essas três doutrinas muito importantes.

1. ESSÊNCIA E PERSONALIDADE

Gurdjieff afirma que Essência é aquilo com que você nasceu e Personalidade, aquilo que você adquire. Há certas coisas que nascem com você, tal como determinadas qualidades físicas, estado de saúde, certos tipos de pré-disposição, inclinações, tendências e assim por diante. Elas pertencem à Essência. Personalidade é aquilo que você adquire no curso de sua vida: pontos de vista, opiniões, palavras.

Do ponto de vista Arica, essência é o Continuum Eterno da consciência, inata, eterna, perfeita e pura, no mesmo sentido que na doutrina do Tathagatagarbha da Escola Chittamatra (“mente-somente”), mas a Escola Arica concebe um “henosis” supremo, ou a união verdadeira com Cabeça de Deus em uma Teose Suprema (iluminação suprema). A Escola Arica observa que personalidade não é somente a formação de hábitos, mas o mecanismo inteiro dos nove constituintes da personalidade claramente definidos, muito mais na linha da filosofia hindu Shamkara e da tradição budista dos cinco agregados da personalidade. No sistema Arica, cada um dos nove constituintes é visto como um eneagrama separado que apresenta a noção básica dos nove numerais (pontos do eneagrama), primeiro estabelecido por Pitágoras (550 a.C.). Encontramos também no antigo Egito o princípio do nove bem desenvolvido no octeto mais o Deus supremo, Amon-Ra dos cultos do Nilo superior em Tebas. Na tradição zoroastriana encontramos sete emanações principais, (7) do Um, o oitavo (8), mais a Criação (9).

Concluindo, a psicologia Arica está baseada no fato de que há nove constituintes da personalidade humana, que são apresentados em uma co-dependência e inter-relação serial, como é mostrado no eneagrama seguinte:

2. OS TRÊS CENTROS DO HOMEM

Na literatura de Gurdjieff-Ouspenski encontramos as seguintes definições:

1 “O centro instintivo que controla o trabalhar do corpo e as suas funções e o centro móvel que controla os movimentos voluntários do corpo. Ele também contém o centro sexual”;

2 “O centro do sentir de nossas emoções diárias”;

3 “O centro do pensamento ou nosso intelecto”;

Assim Gurdjieff define o homem como um ser tricentrado, e diz também que o homem é um ser de três cérebros. Gurdjieff avança muito superficialmente, mostrando que os animais são qualificados como seres de dois cérebros (isto é, sem o intelecto) e que insetos são seres de um cérebro (isto é, não têm intelecto nem emoções). Em todo caso, essas definições não são científicas e ele não oferece nenhuma validação para essas “idéias”. Originalmente, encontramos a mesma doutrina na História animal e na Geração animal de Aristóteles, bem como no trabalho hermético de Poemandres, O Pastor dos homens (200 a.C.) e também em A Inteligência dos animais e A Razão dos animais de Plutarco.

A Escola Arica observa que há cinco centros fundamentais de atenção em nossa psique, cada um como um produto ou uma manifestação de um sistema orgânico básico. A primeira análise Arica é semelhante ao budismo, ou à República de Platão, e coloca os mesmos três degraus: físico, emocional e intelectual, obviamente, os centros básicos de nossa vida diária. Esse mundo das sensações, emoções e pensamentos no sistema Arica é o resultado dos três instintos básicos em separado, bem como dos dois impulsos básicos, o sexual e o espiritual, que em conjunto formam a base dos cinco centros fundamentais de atenção. Esses centros de atenção são a conseqüência do impulso básico de sobrevivência, que está na base mais profunda da nossa consciência e divide-se em duas diferentes funções: uma função interna de preservação e suporte, e outra função externa de procriação e continuidade. Um aspecto do impulso de sobrevivência aparece como os três instintos que suportam a vida e que no sistema Arica são conhecidos como os três instintos de suporte, manifestados na atividade interna do nosso organismo com suas três funções orgânicas principais: digestão, circulação e sistema nervoso central. O outro aspecto básico do instinto de sobrevivência aparece como os dois impulsos de continuidade, que são as funções externas de procriação e de individualidade, conhecidos na Escola Arica como os dois pólos: sexual e espiritual. Essa análise dos impulsos básicos de sobrevivência, que é dividida em duas funções — a função interna, com seus três instintos de suporte e as funções externas, com os dois impulsos de continuidade — é original e exclusiva do sistema Arica.

Os instintos são definidos claramente como uma conseqüência dos três sistemas orgânicos básicos. Vale dizer, a necessidade e a função orgânica do sistema produzem uma demanda específica em nossa consciência, com uma característica específica e também com uma área específica de interesse. Os instintos e os impulsos aparecem em nossa consciência como questões básicas inatas. Com isso queremos dizer que elas não necessitam aparecer como questões intelectuais, pois são sentidas imediatamente porque, de fato, são demandas básicas da lei mais fundamental de toda a vida: a da simples sobrevivência. Isso quer dizer que essas questões instintivas inatas estão sempre presentes e, quando necessário, elas instantaneamente chamarão a nossa atenção porque significam uma demanda por sobrevivência. Por essa razão, não podemos postergá-las posto que são primárias, e não podemos controlá-las, uma vez que estão na base mais íntima de nossa psique, como instruções para viver e sobreviver.

1. O INSTINTO DE CONSERVAÇÃO

O instinto de conservação é o nosso instinto básico para nos alimentarmos e sobrevivermos. Ele é o resultado das necessidades de nosso trato alimentar com o seu centro sentido no plexo solar, no topo da cavidade abdominal. Ele projeta a questão inata “Como eu estou?”. Constantemente temos que responder a essa questão “Eu estou faminto e tenso?” ou “estou satisfeito e relaxado?”. Sabemos disso diretamente por meio do instinto. Não necessitamos fazer a pergunta real conscientemente, mas a necessidade de comer significa que temos que conseguir comida. Isso significa que temos que trabalhar e nos envolver em certas atividades, de modo a obter essa comida. O Eneagrama do Instinto de Conservação Arica define esse processo. Porque o instinto de conservação significa a nossa sobrevivência, ele se torna um centro de atenção, que é o lugar onde o instinto posiciona sua questão inata como uma demanda direta. A necessidade de responder a essa questão instintiva inata desenvolverá um “ego” artificial ou uma exigência de “Eu” que envolve a totalidade de si mesmo, por ser um imperativo da nossa sobrevivência. Esse ego terá seus próprios interesses, demandas e estratégias para ter sucesso em suas exigências e, como uma projeção do instinto de conservação, ele aprenderá pela experiência como obter comida para sobreviver. Em contraste aos venenos dos domínios (Olho dourado, parte I e o Ritual do fogo, pág. 17), uma outra série de venenos “instintivos” se desenvolve onde o ego, projetado pelo instinto de conservação, naturalmente se desenvolverá no veneno instintivo da cobiça que, quando quebrado nas suas três correspondentes fixações, expõe as três raízes dos venenos do “grupo instintivo”, avareza (ego vingativo), cobiça (ego indiferente) e possessividade (ego ressentido) que influenciarão as fixações de nossa consciência com suas demandas. O ego do instinto de conservação com sua tríade é conhecido como ego histórico, porque aprende pela experiência como funcionar para sobreviver no mundo e responder à sua questão inata básica de comida para sobreviver. O ego histórico nos dará nosso sentido de propriedade e de posse e fará nossas estratégias para acumular riqueza e tudo aquilo que pode satisfazer a nossa demanda instintiva de ser bem protegido, em uma “conservação sábia” no sentido geral. Assim, o instinto de conservação, por intermédio do ego histórico, responderá à questão instintiva inata de “como eu estou?” em relação ao mundo. Se sinto que minha conservação não está bem protegida, sinto que meu estado de ser, no sentido de “estar bem” ou não, é ameaçado. Meu ser inteiro se centrará nessa carência, que é sentida como uma ameaça à minha sobrevivência. Durante a infância uma ameaça consistente ao instinto de conservação desenvolverá uma fixação em um dos três pontos da tríade conhecida como do grupo do Ser que projeta as fixações do justiceiro excessivo (ego vingativo), do buscador excessivo (ego indolente) e do perfeccionista excessivo (ego ressentido).

 

2. O INSTINTO DE RELAÇÃO

O instinto de relação na teoria Arica é o instinto natural para nos associarmos em uma comunidade com outros seres humanos, como um princípio básico de sobrevivência, que resulta das necessidades de nosso sistema circulatório, composto do coração, pulmões, artérias, veias e rins, que está centrado e é sentido no plexo cardiopulmonar no centro da cavidade torácica. Basicamente nos relacionamos com nosso ambiente, ainda mais diretamente do que por nossa pele, pelos nossos pulmões e seus alvéolos, que estão em contato imediato com o ar e por meio dele com o nosso ambiente. Nossas emoções são o resultado de quão bem mantemos nossas relações com as outras pessoas. A questão instintiva inata desse instinto é “com quem estou?”. A resposta a essa questão, “Estou com um amigo ou com um inimigo?”, disparará as emoções primárias de gostar e não gostar. Esse centro de atenção emocional desenvolver-se-á em um ego interessado em nossas relações humanas, como os outros nos vêem e como vemos aos outros. Esse ego é conhecido no sistema Arica como ego imagem, porque ele está sempre jogando um papel social, uma “persona”, de acordo com a nossa própria imagem. O interesse desse centro de atenção desenvolve naturalmente o veneno instintivo do ódio que, ao se dividir nas suas três fixações correspondentes, expõe as três raízes dos venenos do “grupo instintivo”, inveja (ego monótono), do ódio (ego exibido) e do ciúme (ego melancólico) que projetarão as fixações da tríade do grupo do Viver, quais sejam, o independente excessivo (ego insípido), o eficiente excessivo (ego exibido) e o raciocinador excessivo (ego melancólico).

3. O INSTINTO DE ADAPTAÇÃO

O instinto de adaptação é o resultado da necessidade constante de nos adaptarmos ao nosso ambiente natural e também ao nosso ambiente social, como conseqüência da nossa necessidade básica de sobrevivência. Ele resulta do sistema nervoso central composto pelo encéfalo, pela corda espinhal e pelos nervos periféricos, cujo centro é sentido na cavidade craniana. Ele projeta a questão instintiva inata, “Onde estou?”. Essa necessidade básica de orientação é o fundamento de nosso sentido de trabalhar e de fazer e nos orienta como devemos nos conduzir para obter êxito na natureza e em nossa sociedade, adaptando-nos a elas e utilizando-as para nosso objetivo básico de sobrevivência. Esse centro se desenvolve naquilo que no sistema Arica é conhecido como ego prático, que tem o conhecimento para sobreviver. Ele é o centro intelectual, cujos resultados básicos são pensamentos e construções mentais. O interesse desse centro de atenção desenvolve naturalmente o veneno instintivo da fraude que, ao dividir-se nas três fixações, expõe as três raízes dos venenos do “grupo instintivo” confusão (ego intrometido), falsidade (ego covarde) e mitomania (ego planejador), que projetarão as fixações da tríade do grupo do Fazer, quais sejam, o observador emissivo (ego intrometido), o aventureiro excessivo (ego covarde) e o idealista excessivo (ego planejador).

Como disse, a minha idéia dos três centros resulta de predecessores óbvios, os Vedas, Upanishads, Sutras Budistas, Platão etc. e de mais uma análise profunda da relação de nosso sistema corporal básico e nossas reações instintivas básicas. A idéia de que há uma ligação entre o nosso corpo (soma) e nossa psique é um dos mais antigos conceitos, mas a descrição e a correlação como um resultado de um “sistema corporal específico” é uma análise exclusiva da Escola Arica. Também o desenvolvimento dos “instintos” em determinados “egos”, que são claramente descritos, nunca foi proposto antes. Mais adiante, a análise dos nove venenos, que segue a tradição comum Hindu-Budista dos três venenos, é apresentada no sistema Arica como as nove fixações que ocorrem quando um dos instintos fixou sua atenção como mecanismo de defesa durante a infância. Como podemos ver, o que apresento não guarda qualquer relação com a descrição vaga de Gurdjieff sobre um princípio geral como os três centros, que só dedicados gurdjieffianos cegamente acreditam ser uma proposição do seu Mestre.

4. O PÓLO SEXUAL E

5. O PÓLO ESPIRITUAL

Além dos três instintos correlacionados às três funções principais de nosso organismo, ou seja, a digestiva, a circulatória e o sistema nervoso central, a Escola Arica observa outros dois centros de atenção, que nesse sistema são conhecidos como os pólos de nossa vida psíquica, porque a nossa vida inteira é suportada entre eles. Esses dois centros de atenção são também funções do nosso impulso básico de preservação e sobrevivência. O pólo sexual está relacionado ao instinto humano de procriação para sobrevivência da espécie e está baseado nos nossos órgãos sexuais (a cavidade pélvica) enquanto o pólo espiritual está centrado na nossa camada mais íntima do ser e é sentido como um senso de individualidade e identidade. Esse é o nosso mecanismo para perpetuar a nossa sobrevivência como uma certa pessoa, individual e identificável. O pólo espiritual está centrado na glândula pineal e no tálamo ótico do mesencéfalo (cérebro interior). Entre esses dois pólos, o sexual e o espiritual, há uma tensão constante e, como formam um mecanismo primário de sobrevivência, eles também chamam nossa atenção por meio de questões inatas de identidade. O pólo sexual responde sobre a nossa identidade de gênero. O pólo espiritual responde à questão de nossa identidade como indivíduo. No sistema Arica, a vida da psique humana flutua entre essas duas identidades, de gênero e individualidade.

Como podemos ver, essas descrições são originais e apresentadas pela primeira vez pelo sistema Arica, não têm traços de origem ou de similaridade com as descrições muito superficiais do ser tricentrado de Gurdjieff, para quem os seres humanos têm milhares de personalidades ou “Eus”, que algumas vezes não têm relação um com o outro e sua existência mútua é ignorada.

Talvez o que mais chamou minha atenção em Gurdjieff foi sua afirmação de que tudo no Universo é de algum modo “material”, desde o Sol Absoluto ao Segundo Sol (o nosso Sol), descendo até a Lua mais embaixo. Nesse sentido, tudo é “material” incluindo pensamentos e por extensão também o espírito, que é conceituado como muito sutil, mas ainda assim “material”. Também as “impressões” muito sutis que recebemos do mundo externo são “materiais”, que são tão ou mais importantes que o oxigênio e o alimento comum para nosso sustento e sobrevivência. Essa é exatamente a doutrina das “impressões” como proposta por Zeno de Cítio (300 a.C.), que caracteriza “impressões” como a apreensão ou a compreensão imediata da realidade e que chamou de Kataleptike phantasia. Essa doutrina estóica das “impressões” não deixa espaço para o engano comum que encontramos em nossa experiência comum de sentir impressões. Mas a kataleptike phantasia era “impressão” das vibrações superiores e foi definida como um fogo etéreo, muito refinado e muito sutil, que permeia o Universo inteiro. Essa noção é exatamente a mesma do “Etherokrilno” de Gurdjieff em suas Histórias de belzebu.

Uma outra doutrina estóica básica é a do “Raio da Criação” com as suas sete vibrações correspondentes. É uma doutrina herdada dos pitagóricos e dos órficos que finalmente foi sintetizada como a Razão Universal (Logos), porque para os estóicos desde Zeno, Cleantes, Crisipo, Panaetius e Posidônio até Cícero, Sêneca e Plutarco, Razão era a manifestação espiritual mais alta possível. Conseqüentemente eles equipararam Razão a Deus, manifestado por todo o Universo como esse éter-fogo sutil. Esse conceito é muito similar ao prana nos Vedas e ao conceito do fogo supremo do zoroastrismo. Isso é muito importante, porque a doutrina estóica herdou dos Magos da Pérsia o conceito de que o Universo era pré-ordenado e assim os planetas mais próximos e imediatos não somente nos “influenciam”, mas alternadamente governam nossas vidas, do nascimento à tumba. Conseqüentemente, não podemos fazer nada por nós mesmos porque vivemos sob a “influência” dos planetas, que eram concebidos como seres vivos, porque foram influenciados pelo nosso Sol que, por sua vez, recebeu influência do Cosmo e de Deus. Eles eram todos produtos da Razão Suprema, que foi chamada de Razão Objetiva, a que poderíamos nos aproximar, ou realizar, ao fazermos “coisas apropriadas” ou kathekonta, que é da mesma natureza que o Absoluto cósmico. Nesse sentido a salvação somente seria possível pela compreensão das leis cósmicas e pela aceitação da realidade com todo o seu sofrimento, que seria um plano divino que deveria ser aceito. Por causa disso deveríamos aceitar o sofrimento conscientemente. Isso significa um “sofrimento voluntário”, um dos conceitos mais obtusos utilizados por Gurdjieff, que pode ser compreendido somente com a doutrina estóica da “Vontade”, que sinteticamente vem da análise de Zeno e que diz que nós estamos felizes quando temos o que é objeto de nosso anseio, ou nossa “Vontade”, na forma de um desejo. Mas, como a ação do tempo é impiedosa e não pode ser parada, nunca poderemos conquistar nossos desejos e viveremos mecanicamente tentando realizá-los, sendo sempre desapontados pela destrutividade do tempo. A única forma que havia era escapar do corpo, que era como um túmulo e uma “prisão”. Esse escape seria possível se nos tornássemos conscientes das leis do cosmo ou Razão Objetiva, e, se aceitássemos as leis conscientemente, em vez de vivermos “mecanicamente”, mudaríamos a nossa atitude e por vontade própria aceitaríamos o processo que está ocorrendo, que é inevitável, e então poderíamos observar o sofrimento como um “ato voluntário”. Esse é o grito de Posidônio quando ele sofria as misérias de uma doença e dizia a cada novo espasmo: “Faça o seu pior, dor; faça o seu pior: você nunca me forçará a reconhecer que você é um mal!”. Isso é o mesmo que dizer que se cairmos na armadilha de combater a realidade, sofreremos; mas ao mudarmos nossa atitude e “Vontade” do individual ao cósmico, pararíamos as influências planetárias negativas e de sofrer mecanicamente, transformando a energia negativa do sofrimento na energia positiva de “Desejar Conscientemente”. Com esse esforço consciente da “Vontade”, poderíamos produzir um “corpo astral” que seria capaz de sobreviver e transcender à morte. Eu não preciso apontar a absoluta similaridade entre as doutrinas estóicas e as de Gurdjieff.

Como é bem conhecida, a doutrina estóica da “Providência Divina” permeou todos os patrísticos, assim como a “Vontade em aceitar o sofrimento” em razão de um “plano divino” pré-estabelecido, como podemos ver desde São Clemente, Ignácio, Papias e Irineu até Clemente de Alexandria, Origem, Tertuliano, Hipólito e Apolônio, que influenciou diretamente a Filocalia Ortodoxa. A Oração do Senhor, como é ensinada pela Filocalia é parte do exercício comum da aceitação total da vontade divina no mesmo formato que Gurdjieff ensinou a Ouspensky e aos demais. Mas aqui temos que observar que a “Vontade” da Razão Objetiva dos estóicos e de Gurdjieff é algo “material”, embora sutil, e que a idéia comum de que os planetas são entidades vivas e o funcionamento mecânico normal do homem produz exalações que realmente “alimentam a Lua”, do ponto de vista Arica é uma cosmologia materialista e ingênua; enquanto a doutrina de redirecionar a “Vontade” por meio da “ação consciente” e do “sofrimento voluntário” para transcender as influências planetárias e assim evitar que nos tornássemos “alimento para a Lua” é uma cosmologia primitiva que morreu com Copérnico e isso é tudo.

Temos que lembrar que Gurdjieff faz uma salada com todos os que classifica como “indivíduos-Hasnamuss”, que se autodenominam teosofistas, sociólogos, psicólogos, astrônomos, cientistas de qualquer tipo ou “sabichões” como pessoas completamente adormecidas, vivendo e agindo mecanicamente; mas quando chega nos astrólogos ele pára sua narrativa confusa, repetitiva, redundante e tediosa para ressaltar, em diversos parágrafos, o respeito e admiração à astrologia dos Magos Caldeus que, como ele relembra, eram peritos em aconselhar uniões conjugais de acordo com a posição dos planetas. Para Gurdjieff não havia nenhuma dúvida que essa velha astrologia era uma ciência real e ele diria: “Matemática é inútil. Você não pode aprender as leis da criação e da existência do mundo pela matemática”. Para ele, adivinhos e astrólogos eram a coisa verdadeira e os únicos com ciência objetiva. Pensar dessa forma em nosso tempo é simplesmente uma idéia maluca, absurda e supersticiosa. Mas novamente podemos compreender que para os estóicos a astrologia foi de fato uma ciência objetiva, porque era o estudo da ciência sideral em que o destino estava escrito, como podemos ver no Hino a Zeus de Cleantes. Esse saber astrológico, com sua influência materialista, produziu vidas humanas robóticas e mecânicas, que poderiam ser transformadas pelo “agir intencional” ou seja, por estar consciente que não estávamos seguindo a “Vontade” de nossos desejos, mas a “Vontade” de nossas “intenções” e produzindo com ela “impressões conscientes” ou “kataleptike phantasia” com a qual poderíamos construir e proteger um “corpo astral” que sobreviveria à morte. O grande problema dos estóicos é que somente um “Homem sábio” pode realizar Kathekonta (“coisas apropriadas”) porque somente ele possui o espírito da sabedoria, phronimos, já desenvolvido. O que Gurdjieff diria é que você não pode absorver “impressões conscientes” se você mesmo não está completamente desperto e, como o “Homem sábio” estóico, o “homem consciente” de Gurdjieff é um degrau praticamente impossível de atingir. Devemos relembrar que os estóicos, mesmo nos mais avançados postos, chamavam-se prokoptontes, ou pessoas “avançando” no caminho. Mesmo o Grande Sistematizador, Crisipos, sustentava que o seu conhecimento era ainda intelectual e assim não havia a kataleptike phantasia direta e perfeita, porque para receber “impressões puras” era necessário suportar um longo processo de “trabalho intencional” e de “sofrimento voluntário” contínuo. Essa prática deu aos estóicos uma característica de profunda e mortal seriedade, aquela atitude estóica que não tem interesse com considerações sobre sofrimentos pessoais ou incômodos. Apesar de suas reivindicações em contrário, os estóicos eram conhecidos em toda a antiguidade por sua seriedade deliberada em aceitar o sofrimento. Essa imagem lembra-me os gurdjieffianos fazendo os seus movimentos para produzir um “alfabeto” sério. Eu posso ver a todos com seus olhos abertos como se alguém os tivesse sacudido freneticamente e agora eles estavam com uma aparência desorientada e alarmada.

Em conclusão, a realidade é que os gurdjieffianos, como os estóicos da antiguidade, são incapazes de apresentar indivíduos completos e realizados de acordo com as suas idéias. É bem conhecido que nenhum dos seguidores mais próximos de Gurdjieff chegou a qualquer grau de transcendência mística. Sobre transcendência mística ninguém pode brincar de “sabichão”, porque o caminho para a realização completa é perfeitamente conhecido, como está descrito pelas grandes escolas das tradições do zoroastrismo, do budismo e do hinduísmo.

Enquanto trabalhava pessoalmente com Gurdjieff, Ouspensky ficou assustado com o imenso esforço físico, com todas as complicações, “choques” emocionais e uma atitude sobre-humana de dedicação ao mestre e ao “trabalho” que o pôs fora do “trabalho”. Ele terminou sua vida somente teorizando sobre a “máquina humana”, com muito pouca auto-realização e com o seu anseio particular pelo “miraculoso” e por transformações verdadeiras e, como diz Colin Wilson: “permaneceu tristemente não-realizado”. Há também o caso do tremendamente dedicado J.G. Bennett, que cansou da procura e por não poder ir além do seu nível, “de um idiota que poderia ser tostado”, terminou por seguir Pak Subuh, o Messias indonésio e finalmente tornou-se católico romano. Ele mesmo, Gurdjieff, pode ser visto em fotografias e nas descrições de seus associados próximos como a imagem de um homem triste, muito cansado, preocupado, melancólico, frustrado e “parece que ele tinha que se consolar com grandes quantidades de Armagnac e Calvados, que chamava de ‘feu concentre’, seus mais confiáveis ‘medicamentos’ e grandes charutos pretos”. Nós também podemos ouvi-lo dizer: “Mas quando eu estou bêbado, eu rezo a Judas”. Pausa. “E eu estou quase sempre bêbado”. Quando sua autópsia foi realizada, um fígado tremendamente cirrótico foi encontrado com uma terrível dilatação e varicose das veias gastresofágicas. O estômago estava tremendamente aumentado por causa da ingestão constante e abusiva de combinações letais de comida e álcool que destruíram as funções do seu pâncreas e produziram um cólon calamitosamente constipado e expandido. A cirrose de seu fígado foi diagnosticada como cirrose alcoólica, resultado da ingestão crônica de álcool, produzindo uma ferida álcool-induzida no fígado, que no caso de Gurdjieff foi uma fibrose hepática generalizada que resultou na trombose da veia portal e em uma hemorragia massiva das veias varicosas gastresofágicas e relacionada a uma encefalopatia hepática. Os médicos cirurgiões declararam que era incomum que alguém pudesse viver com um organismo de tal forma abusado e esgotado. Isso foi tomado pelos devotados gurdjieffianos como uma prova inquestionável da realização de seu mestre. Falando francamente, eu sempre questiono que tipo de prova foi essa.

Como disse, sempre me surpreendeu que estudiosos capazes, como Ouspensky, Nicoll, Collins, Bennett ou qualquer um outro, até agora jamais conectaram as idéias de Gurdjieff com as bem conhecidas doutrinas estóicas, que no segundo e terceiro séculos se tornaram ensinamentos avançados dos filósofos neoplatonistas e dos místicos gnósticos. Sempre pensei que essa concepção da imensa importância de Judas e de sua traição a Jesus, que li pela primeira vez no livro de Ouspensky Em busca do miraculoso, era uma pista clara de que essas “idéias” gurdjieffianas eram de fato uma recapitulação do estoicismo e dos Gnósticos Setianos do segundo século d.C., fundado sobre a metafísica de Valentino (Valentim), que foi comentada pelo autor cristão patrístico Hipólito que apregoa em seu livro A Refutação de todas as heresias (222 d.C.), que a doutrina de Valentino era um plágio direto dos números pitagóricos e da doutrina platônica do Timeu. Podemos ver no cabeçalho de seu Capítulo XXIV – “Valentino culpado do plágio da filosofia platônica e pitagórica.

No livro de J. G. Bennett, Idiotas em Paris, encontramos no final do registro diário do dia “27 de agosto”: “Mas, Judas foi o personagem verdadeiramente importante nisso. ‘Por causa de Judas, o seu Cristo se tornou Deus por 2.000 anos’. Algumas vezes era mais importante rezar a Judas do que a Deus. Quando ele está bêbado ele reza para Judas. ‘Mas então eu bebo o tempo todo’, assim ele sempre reza para Judas”. No registro de “28 de agosto” consta: “Nesta manhã muitos de nós nos reunimos para recuperar o que G. disse sobre o papel de Judas. Judas não foi apenas a causa direta e eficiente de Jesus ser Deus por 2.000 anos para a metade da humanidade, mas ele teve o papel supremo. ‘Eu não rezo muitas vezes para Deus. Eu não desejo perturbar a Sua Infinitude. Mas quando eu estou bêbado, eu rezo para Judas’. Pausa. ‘E eu estou quase sempre bêbado.’ Ele falou de forma muito extravagante sobre o papel de Judas, como o único consciente das regras de auto-sacrificar. Verdadeiramente O Maior no evento do cristianismo. De Jesus como ‘somente um pequeno judeu’ e assim por diante. Separando aquilo que era dito meramente para chocar recém-chegados, permanecia um consistente ensinamento de Judas desempenhando uma parte totalmente importante, sem a qual o cristianismo, como nós o conhecemos, jamais teria existido”. Tudo isso pode ser tomado literalmente do grande trabalho do autor patrístico Irineu, Contra Heresias (188 d.C.), em que encontramos, no Livro I, Capítulo XXXI, Doutrina do Cainismo: “Eles declaram que Judas, o traidor estava completamente informado dessas coisas e que ele sozinho, conhecendo a verdade como outros não podiam, realizou o mistério da traição e por intermédio dele todas as coisas, tanto terrenas quanto celestiais, foram então lançadas em confusão. Eles então criaram uma história fictícia, que denominaram o Evangelho de Judas”. Mais adiante nós lemos: “Eles também afirmam, como Carpócrates, que o homem não pode ser salvo até que passe por toda espécie de experiências. Um anjo, eles afirmam, o observa em cada uma de suas ações abomináveis e pecaminosas, bem como o incita em aventuras audaciosas e a incorrer em poluição”. Como podemos ver, somente os Gnósticos do Cainismo, que eram um ramo da seita Setiana e conseqüentemente também sustentavam as doutrinas de Valentino, foram os únicos que tomaram Judas Iscariotes como seu Santo Patrono, porque ele tinha este “conhecimento perfeito”, que significava aquele conhecimento para uma pessoa fazer “tudo sem medo”. Isso é conhecido nas “idéias” de Gurdjieff como o “acordar da coragem”.

É bem conhecido que após a morte de Gurdjieff seus discípulos acreditaram que o livro História de belzebu seria como um brilho na noite, mas na realidade foi um fracasso editorial e, de uma forma ou outra, os poucos que tiveram a coragem e paciência de lê-lo não souberem que tipo de pedra estava sendo fornecida como sopa. Mas os discípulos devotos insistiam que, “embora ele fosse muito difícil de compreender”, continuariam a lê-lo porque Gurdjieff disse-lhes que cada um que desejasse aprender deveria ler e reler muitas vezes: “Primeiro siga meus escritos”, significando as Histórias de belzebu, os quais ele mesmo considerou como sendo de uma profundidade inefável e que o fizeram exclamar: “Este capítulo! Como eu escrevi eu não sei. Eu falo objetivamente. Se eu escrevi ou de onde isso veio eu não sei. Por este capítulo a força inteira de Belzebu se torna três vezes mais forte”.

A figura do eneagrama, que os gurdjieffianos afirmam que eu tomei de seu mestre, é de fato uma das formas conhecidas como “selos”, que foram produzidas pela Escola pitagórica (500 a.C.) e pelos matemáticos platônicos (300 a.C.) que estudaram as relações internas dos números com formas geométricas, dando a cada número, não somente as suas características, mas suas inter-relações internas.

No sistema Arica utilizamos os “selos” de cinco (pentagrama), de seis (hexágono), de sete (heptágono), de oito (octógono), de nove (eneagrama) e de doze (dodecágono). Todas estas figuras geométricas são circundadas, e eles mostram uma progressão exterior de números seriais e um movimento interno que proporciona uma série numérica característica, como no caso do pentágono, onde temos os números seriais externos 1, 2, 3, 4 e 5, e uma numeração serial interna de 1, 3, 5, 2 e 4. O que é extraordinário nos “selos” pitagóricos é que eles são padrões e formas puras (arquétipos) que foram utilizados para padronizar processos diferentes da realidade, o que encontramos ao empregarmos essas figuras como “chaves” para determinados processos. Eles se ajustam estritamente à realidade, e nesse sentido são estritamente científicos porque podem ser provados por experimentos. Por exemplo, o pentágono (não pentagrama) é a chave para a doutrina “Dos Quatro Elementos” mais o éter de Empédocles. Foi a chave para a medicina e as artes marciais gregas, representadas nos Jogos Olímpicos pelas habilidades de correr, saltar, lançar duas distintas armas mortais e luta romana, cada habilidade relacionada a um elemento. O ponto importante para interpretar essas “chaves” é que o movimento externo do círculo é construtivo e progressivo, enquanto o movimento interno é destrutivo e regressivo. O que é surpreendente é que até o nosso tempo nós não temos explicação de como, ou porque, na China clássica aparecem os mesmos quatro elementos e o éter que eles aplicavam, quase exatamente na mesma forma que os gregos, à medicina e às artes marciais. Qualquer um que tenha experiência em medicina chinesa e em artes marciais internas, como o T’ai Chi, Shing Yi e Pa Kua, conhece a incrível eficiência e realidade de como processos e órgãos relacionam-se em uma seqüência onde eles cooperam um com o outro ou numa seqüência onde eles destroem um ao outro. A exatidão dessas descrições é validada pelas tradições milenares da medicina chinesa, cuja descrição dos processos patológicos, que consideram o organismo inteiro, são incrivelmente mais sofisticadas do que qualquer coisa que a medicina ocidental pode oferecer em termos de diagnóstico e prognóstico, que é restrito na medicina ocidental, que somente considera órgãos ou problemas isolados. No sistema Arica o pentágono (não pentagrama) é também usado em relação à doutrina “dos elementos” que no sistema aumentam de cinco para nove elementos primordiais e são estudados em um padrão conhecido como a Pirâmide Adamantina, porque descreve a relação entre os oito elementos primordiais mais o espaço, permitindo que processos completos possam ser descritos. Essa figura Arica se torna sintetizada em cinco pontos, e as mesmas leis do pentágono clássico (não pentagrama) são observadas.

O hexágono, conhecido como o “Selo Real de Salomão” e caro aos Cabalistas, Cavaleiros Templários, Maçons, Rosacrucianistas e místicos como John Dee, Jakob Boehme e Meister Eckhart — no sistema Arica é a “chave” para a união entre as mentes absoluta e relativa, ou como disse um hermetista: “a união do micro com o macrocosmo”, que é a “chave real” de sua ciência e que na Escola Arica é exposto como a doutrina da realidade e sua sombra, descrita nas figuras positivas e negativas do Escaravelho.

O heptágono é a “chave” que descreve a relação das sete notas de Pitágoras, e no sistema Arica as primeiras três notas representam a essência interna da Existência Divina Absoluta, do Conhecimento Absoluto e da Compaixão Absoluta, representadas pela Mente Divina de Presença ou a Mente de Iluminação. As quatro notas mais baixas no sistema Arica são representadas como a manifestação da Mente Divina de Separação, da Mente Divina de Igualdade, da Mente Divina de Amor e Compaixão e da Mente de Lucidez. A relação entre os dois grupos é a “chave” para compreender a conexão entre a Mente Divina de Presença, ou o nosso Eterno Continuum, e a realização do Ser Adamantino, ou as quatro Mentes Divinas, que são compreendidas na Escola Mahayana Chittamatra como a doutrina dos quatro corpos de Buda. No sistema Arica, essas quatro Mentes Divinas são formas específicas da Mente Divina e de nenhuma forma são arcanjos voadores ou entidades vindas do alto do céu.

O octógono é o “selo” que representa o relacionamento harmônico de uma unidade completa ou mônada, que é descrita como oito forças distintas que produzem um espaço de equilíbrio de uma unidade autocontida. No sistema Arica, essa é a chave para as “células” ou unidades, em que o corpo da Escola é representado completamente por oito indivíduos, produzindo uma base objetiva para suportar um espaço místico que, por estar baseada nos nove Princípios Divinos da Consciência, transcende o tempo e a mente relativa.

O eneagrama é o “selo” que descreve o octeto pitagórico e o Princípio Divino da Unidade em uma série que descreve o “Raio da Criação” pitagórico com as sete emanações que têm origem na Unidade Absoluta de Deus e que termina nos estados mais baixos da matéria. Essa doutrina do “Raio da Criação” é a base de todas as escolas do Médio Platonismo, Estóicos, Epicurianos, Gnósticos e Pseudo-Dionísio nos seus tratados mais fundamentais nomeadamente, nos Nomes Divinos, na Hierarquia Celestial, na Hierarquia Eclesiástica e na Teologia Mística, e foi empregado ao pé da letra por Gurdjieff. Para a Escola Arica esse tipo de cosmologia fundada sobre uma doutrina de emanações “materiais” é ingênua e materialista, à qual a Escola Arica não pode aderir em razão de seu Primeiro Princípio que está baseado na transcendência Absoluta (além da matéria) da Unidade de Deus. Por isso, para o sistema Arica, o eneagrama é a “chave” para representar a transcendentalidade com base na lógica trialética. O eneagrama, no sistema Arica, é uma matriz arquetípica que descreve a série da difração da luz em 9 cores. Por isso ele é conhecido no sistema Arica como a Escala da Luz, utilizada na Meditação Hipergnóstica.

O dodecágono é um “selo” utilizado nas séries de doze e aparece no sistema Arica como a “chave” para o sistema das Mentações ou da série retórica da análise objetiva, produzindo uma descrição completa de um processo, ou de um pensamento completo, ou uma ordem necessária para pensar que conduz a um resultado perfeito. O dodecágono é a “chave” para a análise mentacional Arica. O dodecágono é a figura arquetípica da correlação entre as doze notas musicais, ou um sistema dodecafônico completo cujas leis da música harmônica são aplicadas às Mentações, produzindo um padrão tridimensional de pensamento pelo uso de harmônicos paralelos ao pensamento retórico. O dodecágono é conhecido como a Escala do Som no sistema Arica e está elaborado e estudado no trabalho das Mentações.

Eu trabalho com o eneagrama, porque nessa figura é possível acomodar uma série perfeita de nove e também porque as três leis da Trialética podem ser representadas nesse diagrama. Como podemos ver, minha abordagem à figura do eneagrama é totalmente diferente daquela de Gurdjieff.

Como disse antes, sempre chamou minha atenção o fato de que ninguém sabia a origem das “idéias” de Gurdjieff, desde que ele sempre se referia somente “ao sistema”, não dando indicações quanto à sua origem, qualquer que fosse. Então, Gurdjieff nunca teve a cortesia de nos contar sobre suas fontes, talvez porque ele pensou que isso era “uma consideração interna” e poderia ser eliminada, ou talvez mais simplesmente ele não o sabia. Mas quando ele fala de sua busca para realizar um “corpo astral” ou “corpo-Kesdjan”, para usar uma palavra sua, ele pode também estar reproduzindo Posidônio, o Grande Estóico do primeiro século a.C. Até agora, parece que ninguém observou essa conexão óbvia. Após a morte de Gurdjieff, seus discípulos tentaram compreender suas fontes ao tentar localizar a legendária “Irmandade Sarmoung”, a que ele se referia em seus livros e, de acordo com J. G. Bennett, essa irmandade supostamente se desenvolveu dentro de uma seita Sufi conhecida como Khwajagan ou o “Caminho dos Mestres”, que existiu na Ásia Central, durante a Idade Média. Também houve a busca de Rafael Lefort e de outros que ligaram os “movimentos sagrados” de Gurdjieff ao Sufismo, especialmente aos Rodopios dos Dervixes da Ordem Mevlavi. Nada poderia estar tão longe da realidade, porque a Ordem Mevlavi pertence à ortodoxia muçulmana. Mas o ponto que para mim é difícil de compreender é por que nenhum deles conectou diretamente as “idéias” gurdjieffianas com as filosofias, técnicas e métodos estóicos. Como esse sistema veio às suas mãos parece que ele nunca falou para ninguém e, muito provavelmente, nós jamais saberemos, mas você tem que estar cego para não observar que o sistema de Gurdjieff e o antigo estoicismo são um e o mesmo e não há necessidade de ir procurar monastérios utópicos e as sempre tão secretas sociedades que são completamente desconhecidas e nem mesmo registradas em qualquer lugar. Até os tempos atuais as “idéias” de Gurdjieff foram ligadas às tradições Sufi por J.G. Bennett e ao Cristianismo ortodoxo primitivo por Boris Mouravieff, mas nenhuma simples menção da óbvia e direta relação entre a doutrina estóica e as “idéias” de Gurdjieff. Isso é certamente estranho porque de 1958 a 1965 em Santiago, Chile, descobri, junto com um grupo que estava estudando comigo, que as raízes do conhecimento esotérico têm que ser diretamente compreendidas em relação a Pitágoras, a Platão, às doutrinas estóicas, aos Epicurianos e aos Cínicos. No meu livro O processo para a iluminação humana e liberdade (1975), eu fiz uma referência ao fato de que os conceitos de “apatia” e “ataraxia” eram fundamentais para a auto-observação e a iluminação. Todas as noções de autolembrança são, de acordo com os estóicos, obtidas por certos “movimentos objetivos” os quais desenvolvem a necessidade de extrair energia do centro de gravidade, ou do “grande acumulador” do corpo, conhecido como tan t’ien na medicina e nas artes marciais chinesas e como ponto kath no sistema Arica. Nessa época, sistematizei esses exercícios antigos, que são conhecidos na Escola Arica como Pampas, que é um conjunto de cinco exercícios que produzem um estado de despertar intensificado, que era conhecido pelos estóicos como kataleptike phantasia. A mesma técnica é aplicada aos exercícios elevados da Kinerritmia e ao Exercício do Fogo, considerados na Escola Arica como orações objetivas porque produzem um equilíbrio simultâneo entre movimentos físicos, emoções, concentração da mente e integração espiritual. O sétimo nível do trabalho Arica, conhecido como o Corte da Pirâmide Adamantina, também usa exercícios baseados nesse princípio.

Como nós podemos ver, a acusação da Sra. Palmer de que “Eu tomei e ensinei idéias de Gurdjieff sem reconhecê-las” é totalmente sem fundamento. Isso não significa que na escola Arica nós não examinamos as “idéias” de Gurdjieff, ou não estudamos a Cabala, a Alquimia, o Hermetismo, o Gnosticismo, o Sufismo, o Shamanismo, ou sistemas astrológicos ou outros ensinamentos básicos como o Vedanta Advaita ou o Zen Budismo. As fontes sempre foram reconhecidas precisamente porque o sistema e método Arica afirmam propor um novo caminho para realizar o objetivo supremo de alcançar a iluminação nessa mesma vida e a realização do objetivo precioso da Humanidade-Una. A Escola Arica expõe uma teoria completa, com uma lógica precisa e uma análise metafísica da ontologia, da teologia e da filosofia da história. Como estou propondo um método completamente novo, estou evidentemente correto quando digo “Eu sou a raiz de uma nova tradição”. Sobre as nauseantes acusações de que “utilizo as idéias de Gurdjieff sem o devido reconhecimento”, peço aos gurdjieffianos que publicaram A Bibliografia Anotada da Fundação Gurdjieff que categoricamente apaguem a sua caluniosa e gratuita afirmação em relação à Escola Arica e à minha pessoa, baseado exatamente naquilo que exponho nessa carta à Comunidade Transpessoal. Na revista Gnosis (verão de 1991) no artigo escrito por Joel Friedlander, sob o título O Trabalho Hoje, ele declarou: “Oscar Ichazo, fundador da Escola Arica e professor de Cláudio Naranjo: Ichazo utilizou livremente as idéias e técnicas de Gurdjieff e é a fonte original de muitos dos ensinamentos modernos na tipologia do eneagrama”.

Nessa mesma linha, gostaria de pedir aos editores da revista Gnosis e ao autor, Joel Friedlander, que corrijam seu grosseiro, irresponsável e abusivo equívoco sobre mim e a Escola Arica em conformidade com o que tenho mostrado muito claramente, provando exaustivamente que meu ensinamento não tem nenhuma ligação e não poderia ser inspirado de forma alguma pela cosmologia ingênua e materialista e pelas “idéias” muito velhas de Gurdjieff, quer ele tenha ou não conhecido a verdadeira origem delas.

Como disse no início dessa carta, o argumento da Sra. Palmer está baseado em dois pontos, o primeiro que me apropriei das “idéias” de Gurdjieff, o que foi agora respondido, faltando discutir o segundo ponto:

2. Eles (os autores dos eneagramas) colocaram a teoria Arica do eneagrama numa base científica, fazendo-a aceitável e respeitável à comunidade científica.

Vitor Hugo costumava afirmar que “plágio que mata não é mais plágio”. O que ele dava a entender é que as idéias de pequenos autores usadas por outros grandes fazem a fonte original desaparecer diante de uma apresentação superior. O exemplo clássico está em William Shakespeare tomando as idéias para suas tragédias, como “Romeu e Julieta” e o “Mercador de Veneza”, de obscuros autores italianos do início da Renascença e transformando suas histórias e enredos em tais obras-primas que nos fizeram esquecer completamente as fontes originais, que passaram a ser um ponto menor diante da apresentação sem paralelo de seus dramas, grandiosa e inquestionavelmente suprema.

Cláudio Naranjo e seus seguidores, a linha dos padres e freiras católicas, bem como a linha dos psicólogos, têm toda a intenção e o desejo de posicionar a Escola Arica e a mim mesmo como apenas um princípio vago, completamente superado pela apresentação científica dos psicólogos (inclusive Naranjo), assim como pela apresentação dos padres e das freiras. Para este propósito eles afirmam:

a) Que recebi esta teoria de alguma seita Sufi obscura e que o meu papel foi trazer a teoria do eneagrama para o Ocidente. Nesse quadro eles fazem de mim um mero “mensageiro” que não podia compreender o tesouro confiado em suas mãos. Por isso, o material precisava da descoberta e da explicação de cientistas-psicólogos inteligentes e de sacerdotes teólogos;

b) Eles me apresentam como uma pessoa sem formação, que escassamente fala inglês e por isso meu ensinamento muito sintético necessitava de seus argumentos e de sua linguagem científica e ampla;

c) Que eu sou uma espécie de “místico louco” que fala com um certo Arcanjo Metatron ou com o aparentemente não menos esotérico “Green Qu Tub” e que me proclamo um místico “pirado” que tem visões;

d) Eles (os autores dos eneagramas) são os verdadeiros promotores da teoria do eneagrama, porque eu quero guardá-la sob meu poder, para meu uso exclusivo dentro da Escola Arica. Esse segredo foi quebrado por Naranjo e isso provocou a separação entre mim e ele;

e) Que eles são os guardiões reais da verdade do eneagrama, porque já construíram muito comparado ao pequeno início da Escola Arica e porque eles estão apresentando a sua teoria em um formato científico e humanístico (os psicólogos) ou num formato teológico e religioso (freiras e padres).

O que segue são as minhas respostas aos cinco pontos de seus argumentos:

a) Que recebi esta teoria de alguma seita Sufi obscura e que o meu papel foi trazer a teoria do eneagrama para o Ocidente. Nesse quadro eles fazem de mim um mero “mensageiro” que não podia compreender o tesouro confiado em suas mãos. Por isso, o material precisava da descoberta e da explicação de cientistas-psicólogos inteligentes e de sacerdotes teólogos.

a) A base para essa crença partiu da idéia completamente errada de que as “idéias” de Gurdjieff eram ensinamentos secretos de uma sociedade secreta conhecida como a “Fraternidade Sarmoung” e mais tarde conhecida como “O Caminho dos Mestres”, ou o Khwajagan, que existiu na Ásia Central na Idade Média. Esse ponto de vista é sustentado por J.G. Bennett em seu livro Os mestres da sabedoria. Como disse, quando conheci as “idéias” de Gurdjieff-Ouspensky pela primeira vez, observei que se igualavam diretamente aos ensinamentos estóicos, que dependem do conhecimento da “lei cósmica” do “Raio da Criação” e da “lei trina” da ação, reação e neutralidade, que Gurdjieff considera “Afirmação Sagrada”, “Negação Sagrada” e “Reconciliação Sagrada”. O terceiro ponto, o neutro (“Reconciliação Sagrada”) tem a mesma importância e transcendência tanto para os estóicos como para Gurdjieff, porque se produzirmos um ‘estado neutro’ em nós mesmos teremos uma ‘mente imparcial’ que vê tudo desapaixonadamente, ‘apatia‘, e dessa forma tornando possível absorvermos o éter-fogo das impressões superiores, kataleptike phantasia, expressando-nos em perfeito kathekonta ou atitude e ‘intenção’ corretas. Como disse, a cosmologia e a metafísica materialista estóica-Gurdjieffiana podem ser qualquer coisa, menos Sufi, que por todas as definições é o resultado místico do Islamismo. Nesse sentido, não pode haver um Sufi que em todos os termos não seja um muçulmano, porque o sufismo é uma posição extrema do Islamismo Ortodoxo. Isso é radical, e pretender que haja um todo-abrangente Sufismo Cristão é contraditório, porque a Cristandade, de acordo com a tradição muçulmana, nega a Unidade de Deus (O dogma cristão da Encarnação e da Trindade) e é vista pelo Islamismo como uma religião categoricamente idólatra e pagã. Claramente falando, qualquer um que queira encontrar o sufismo tem que olhar para alguma outra parte que não seja nos livros e nas “idéias” de Gurdjieff. Como disse antes, fui abençoado em conhecer pessoalmente grandes professores da mais pura ortodoxia islâmica e sei intimamente que eles jamais aceitariam as “idéias” materialistas de Gurdjieff.

De qualquer modo, deve-se destacar que a teoria Arica não parte inicialmente de uma interpretação mística e espiritual da realidade, mas sim inicia por analisar cientificamente, com o uso da lógica Trialética (quarto e quinto Princípios Arica), os nove constituintes da personalidade humana, ao que segue uma análise metafísica da Realidade Suprema e da concepção teológica da Unidade Absoluta de Deus. Como disse antes, o ponto consiste em que, embora eu conheça muito de perto diversas escolas Sufi Ortodoxas, a teoria Arica provém de um tipo diferente de análise, que é proposta diretamente por mim sozinho. A teoria Arica não é mensagem de ninguém mais, é tão-somente Arica.

b). Eles me apresentam como uma pessoa sem formação que escassamente fala inglês e por isso meu ensinamento muito sintético necessitava de seus argumentos e de sua linguagem científica e ampla;

.b) Essa tem sido a apresentação constante injustamente feita por Cláudio Naranjo e dramaticamente elaborada por seus discípulos da linha psicológica, bem como daqueles da linha teológica (os padres e freiras). Para essa desfiguração há a resposta do meu trabalho como apresentado até esta data; mas eu publicarei em um futuro próximo os livros da teoria inteira Arica com sua completa apresentação filosófica, científica e teológica.

c) Que eu sou uma espécie de “místico louco” que fala com um certo Arcanjo Metatron ou com o aparentemente não menos esotérico “Green Qu Tub” e que me proclamo um místico “pirado” que tem visões.

c) Não há nada que se possa fazer contra a intolerância e velhacaria de certos jornalistas que agem fazendo colagens de frases, de acordo com suas próprias intenções. Essa manipulação sórdida e velhaca é simplesmente desprezível, porque ela é feita em nome da liberdade de expressão. Olhando exatamente a malícia com que o jornalista Richard Leviton, do jornal East/West colocou juntas as frases tomadas de John Lily e Joe Hart com uma afirmação minha do livro, Cartas para a Escola:

“Ichazo afirmou que recebeu a inspiração do eneagrama de um ‘arcanjo de alta categoria’ chamado Metatron. Ele mais tarde afirmou que um misterioso professor chamado ‘The Green Qu tab’ supervisionou todas as atividades Arica subseqüentes (…) como ele afirmou em 1988 na sua publicação Arica Cartas para a Escola: ‘Eles vieram a mim, 108 ao todo, como em uma visão, mostrando suas relações internas com completa claridade, em 1954 em Santiago, Chile. Não sou somente o portador do início desta tradição, mas também, como pode ser absoluta e concretamente provado, os 108 eneagramas e o sistema inteiro em todos os seus termos foram desenvolvidos por mim, única e exclusivamente, e estou mais do que pronto para debater isso publicamente’.”

Se lermos esta colagem, certamente parecerá como se eu fosse “um místico louco” recebendo revelações diretas, o que é contrário ao Primeiro Princípio Arica, que afirma claramente “a Escola Arica declara a Absoluta Unidade de Deus, não em base de fé ou revelação”. O propósito do meu artigo em 1988 foi precisamente corrigir esse ponto e dizer muito diretamente que não recebi este material de nenhum Arcanjo ou de outra entidade qualquer, mas que isso foi o fruto de um longo, caro e dedicado estudo da psique humana e dos principais problemas da filosofia e da teologia. Nesse ponto, após trabalhar anos com os eneagramas, pude visualizá-los na mesma forma das visualizações tântricas, que se tornam mais vívidas e claras do que qualquer coisa que poderíamos perceber com nossos sentidos comuns. Mas quando eu digo que vi o sistema inteiro dos eneagramas como em uma visão, foi uma referência a essa claridade de pensamento com a qual eu pude visualizar o sistema inteiro, após tantos anos de dedicação e de trabalho intenso. Era isso que queria esclarecer em meu artigo quando disse:

“Eles vieram a mim, 108 ao todo, mostrando suas relações internas com completa claridade, em 1954, Santiago do Chile (…) eu não sou apenas o portador do início dessa tradição, mas também, como pode ser absoluta e concretamente provado, os 108 eneagramas e o sistema inteiro em todos os seus termos foram desenvolvidos por mim, única e exclusivamente, e eu estou mais do que pronto para debater isso publicamente.

(…) Os eneagramas certamente não vieram a mim como uma coincidência ou uma manifestação do acaso enquanto no meu carro olhava para as estrelas numa quente noite de verão. De fato, eles vieram a mim como um resultado de um longo processo de investigação, análise e de estudos criteriosos de teologia, de filosofia, de misticismo, bem como do nosso conhecimento científico de física, biologia e medicina.”

Essa espécie de jornalismo indecente e desonesto, que tenta “deturpar” aquilo que é verdade direta e clara, produz uma situação de confusão, que mostra no final o ponto de vista obtuso e limitado do jornalista em sua vontade de criar uma realidade a partir de sua própria falta intencional de consideração pelo trabalho de outros. Esse tipo de jornalismo é apenas dinheiro sujo, trapaça e uma mentira. Eu não entendo o propósito de Richard Leviton do jornal East/West ao insistir que a Escola Arica contesta que eles tenham uma autoridade única e então fazem a sua questão totalmente arbitrária, “podem proposições intelectuais ter direitos autorais?”. A Escola Arica não quer criar direitos autorais em suas proposições, mas simplesmente quer dizer precisamente o que é, porque as suas proposições estão sendo usadas por psicólogos e padres imorais, que estão adaptando apenas o início do sistema Arica às suas próprias idéias, que são radicalmente opostas àquelas da Escola Arica. Nós temos que chegar a essa clarificação extrema porque os psicólogos e religiosos publicam seu trabalho, utilizando descrições Arica, principalmente das fixações, sem o reconhecimento apropriado do que é a Escola Arica e com o que propriamente contribuíram — como uma terapia linear no caso dos psicólogos ou como um caminho para a redenção cristã pelo grupo dos padres e das freiras. Como disse antes, todo o método Arica tem o objetivo principal de obter Teose (iluminação suprema) nessa mesma vida. Para esse propósito, o sistema inteiro é delineado com completa claridade. O ponto principal consiste em reduzir o ego artificial e complexo pelo método da redução do Ego e adquirir a compreensão de nossos mundos internos e externos como produtos de nossa “mente-somente”. O que temos que observar é que jornalistas desonestos não vão a nenhum lugar. Para mim o obtuso e tão obviamente mal intencionado artigo de Leviton não tem explicação e somente temos o seu ressentimento gratuito e arbitrário contra um sistema que ele conhece tão pouco.

Nos Trabalhos mais elevados da Escola Arica, as cinco Mentes Divinas são representadas por deidades meditacionais, mas não são entidades em si mesmas porque isso contrariaria o Primeiro Princípio da Escola Arica ou a Unidade Absoluta de Deus (“Um sem segundo”). O Metatelos Divino no sistema Arica é o arquétipo da Presença de Deus. Isso quer dizer que, ao trabalhar com o Metatelos Divino, estabilizamos a mente que relembra a Unidade de Deus constantemente e sem interrupção. De fato, esse estado da mente é o mais importante para alcançar a percepção mística real e a compreensão por meio da teoria Arica. É sob esse estado de mente que a síntese do sistema Arica foi produzida, e aqui estou dizendo claramente que não recebo mensagens de algum arcanjo, entidade ou entidades vindas do alto do céu, porque isso seria contraditório com a teologia Arica.

O “Green Qu Tub”, ou “o centro” para algumas das ordens Sufi, aparece como a Mente Divina de Amor e Compaixão, cuja cor e vibração no sistema Arica é também verde. No sistema Arica, a Mente Divina de Amor e Compaixão representa a mente iluminada da Não-ação. Isto é dizer que sob a influência da Mente Divina de Amor e Compaixão verde estamos em uma mente “sem-ação-individual” ou “sem-ação-egótica”, significando o interesse em transcender a individualidade ao observarmos o “plano divino”, que faz a humanidade evoluir para sua própria maturidade (segundo Princípio Arica). Essa mente divina da Não-ação pode ser definida como a total submissão da “Vontade” individual à onipotente “Vontade de Deus, Um somente”. Isso também é conhecido como a “grande paz” de Deus porque com essa mente não contraditória podemos compreender, como disse, o processo supremo da humanidade em tornar-se um. A Mente Divina de Amor e Compaixão, que também é representada como o Guardião Supremo verde, é a figura central da Telesmata da Graça, concentrada no Pensamento Arica para a Iluminação ou a perspectiva histórica, inevitável e concreta da humanidade tornando-se um (segundo princípio Arica). Nesse sentido, a força da Mente Divina de Amor e Compaixão significa o “futuro da humanidade”, unificada e transformada na Meta-sociedade, Humanidade-Una. Quando falamos que a direção da Escola é inspirada pela Mente Divina de Amor e Compaixão verde, nos referimos ao estado da mente que está dirigida para beneficiar todos os seres sensitivos ao atuar na direção correta, como sintetizado no Pensamento Arica para a Iluminação. Essa forma de mente divina é representada na tradição budista do Mahayana como o Buda Dhyana Amoghasiddhi verde ou uma mente de ação perfeita de acordo com a mente universal, cujo Bodhisattva é o Buda futuro ou o Maitreya verde.

d) Eles (os autores dos eneagramas) são os verdadeiros promotores da teoria do eneagrama, porque eu quero guardá-la sob meu poder, para meu uso exclusivo dentro da Escola Arica. Esse segredo foi quebrado por Naranjo e isso provocou a separação entre mim e ele.

d) Posso começar por dizer que é uma mentira, seja quem for que diga que alguma vez tive uma ruptura com Naranjo, porque ele queria tornar esse trabalho público enquanto eu queria manter a doutrina secreta para a Escola. Como poderia estar tentando guardá-la secretamente e estar dando palestras públicas como aquela que apresentei em Santiago em 1969, no Instituto de Psicologia Aplicada, sob o patrocínio da Associação Chilena de Psicologia, na qual Cláudio Naranjo aprendeu pela primeira vez sobre o sistema Arica? Como podem ver, Cláudio Naranjo será o primeiro a confirmar que eu queria tornar o sistema Arica público, que foi apresentado a psicólogos e médicos profissionais como uma nova proposição de mapeamento da psique humana inteira pela primeira vez, considerando os nove elementos daquilo que foi considerado e tratado como um “sistema coordenado de sistemas”, e apresentado em uma visão integral em que todos os fenômenos dos três mundos (não dos três centros) podem ser reduzidos na mente transcendental da Unidade Absoluta de Deus. Essa união entre ciência, metafísica e misticismo é uma premissa fundamental para a Escola Arica (quarto e quinto Princípios Arica) e eu sempre tentei transmiti-la publicamente e, num futuro próximo, o corpo inteiro da teoria e sistema serão publicados. Quando pedi por sigilo na Escola, o que é conhecido como um “círculo fechado”, era sobre certas técnicas planejadas por mim que se conhecidas e colocadas em mãos não instruídas e irresponsáveis poderiam proporcionar uma catástrofe de proporções consideráveis. Infelizmente, isso ocorreu e é uma matéria para ser elucidada em algum tempo no futuro. Mas sobre a teoria em si, sempre pensei que era a ferramenta mais válida e eficiente já proposta para analisar sistemática e exaustivamente a psique humana desde o Abhidhamma-Pitaka. Tenho que dizer aqui que nunca quis e não quero mantê-la para mim mesmo e para o uso exclusivo da Escola Arica. Sobre o rompimento de Cláudio Naranjo comigo, nunca ocorreu porque não havia razão para isso. O que ocorreu é que em 1970, enquanto trabalhando com o primeiro grupo de aricans no Chile, após sete meses de trabalho intenso, foi necessário fazer um acordo entre esse corpo de pessoas, de forma a obter um grupo como uma entidade orgânica, um acordo que deveria vir de sua essência, porque estávamos formando um corpo místico, uma escola mística (terceiro Princípio Arica). Por isso produzimos uma Linha da Escola, o que significa que iríamos encarar uma decisão confrontada com a circunstância de que dessa decisão dependeria o futuro da Escola e tudo mais o que isso significa. Nessa Linha, Naranjo foi rejeitado por 100% dos votos. A maior razão foi que ele não podia deixar sua atitude “messiânica” que foi sentida como muito individualista e egocêntrica. Isso foi o que o grupo sentiu dele naquele momento. Apesar disso, continuei a trabalhar com Naranjo e com um grupo pequeno que aderiu a ele, tornou claro ao grupo principal que já havia uma divisão no grupo original, como corretamente observaram. Como disse, apesar da decisão da Linha da Escola, que é inapelável e somente pode ser mudada por outra Linha e então não pude trazê-lo de volta para a Escola, ainda assim continuei a trabalhar com Naranjo e seu grupo separadamente. Sempre pensei que não tinha problemas com ele, mas notícias posteriores sobre esse rompimento começaram a chegar, pintando-me como um fanático, e Naranjo como o cientista heróico. E assim é inevitável ver nessa história sobre o rompimento como apenas a intenção clara de desprezar a Escola Arica e a mim mesmo, sem qualquer fundamento.

Eu clarifiquei minha posição com Cláudio Naranjo no parágrafo do The Arican, edição do Vigésimo Aniversário (1990) que segue: “Recentemente, Cláudio Naranjo publicou um livro intitulado Estruturas Eneatípicas e, para minha surpresa, ele reconhece abertamente a origem desse material, que conheceu pela primeira vez durante uma série de palestras apresentadas (por mim) no Instituto de Psicologia Aplicada (Santiago) em 1969, sob o patrocínio da Associação Chilena de Psicologia”. Honestamente, esperava que Naranjo demonstrasse tratamento mais desonesto do material Arica e que ignorasse completamente o fato desse material ter sido publicado com os direitos autorais registrados pelo Instituto Arica e que sou quem o originou. Naranjo apresenta a estrutura e a psicodinâmica dos cinco centros da mesma forma que os apresentei, como pode ser visto nas publicações Arica, assim ele não contradiz a Escola Arica nem substancial nem fundamentalmente. O que ele faz é uma análise crítica da semântica de alguns dos nomes utilizados experimentalmente durante minhas primeiras palestras. Ele também observa algumas mudanças na hermenêutica e na interpretação, que são o fruto de seu longo trabalho com Protoanálise. Entretanto, ele não introduz qualquer ponto teórico novo ou qualquer reforma da estrutura do material. Na verdade, enquanto jogarmos pelas regras dos jogos da escolaridade e do reconhecimento do direito de origem e fonte, seremos beneficiados.

Retornando ao reconhecimento no início do livro de Naranjo, ele emprega uma jogada embaraçosa ao chamar-me como sua “parteira”, pelo que sou relegado a uma situação equivalente à de Sócrates que, como sabemos, jamais escreveu uma palavra sobre sua filosofia, enquanto Naranjo automaticamente se aponta como o Platão da teoria Arica. Nessa linha, quem sabe se Riso, ou algum padre jesuíta ou freira, está enganando a si mesmo ao tentar se ajustar ao papel de Aristóteles! O que é embaraçoso é que esses autores apresentam as suas cópias dos manuais Arica como uma figura completa, quando de fato a teoria para descrever cada um dos pontos do eneagrama é muito mais vasta. O Sistema Arica inteiro, que é apresentado primeiro como uma psicologia, é de fato baseado em lógica, ontologia, teologia e certamente não surge do ar fino. Sua parte mais importante ainda não foi apresentada. De qualquer modo, se eu fosse a parteira de Naranjo, ele poderia ao menos apresentar algumas novidade visíveis. Mas, tão longe quanto o material em seu livro vai, não encontrei qualquer novidade teórica. Debater a semântica dos diferentes pontos do eneagrama, que linguagem e que hermenêutica deveríamos usar, é certamente válido, mas como disse, os pontos do eneagrama não podem finalmente ser deixados como uma simples definição de linguagem ou descrições metafóricas porque, embora poderosa, em vez de em uma base científica nos deixa somente num plano de interpretação estética. A verdade psicológica e o objetivo científico dessa teoria requerem uma análise mais ampla de como percebemos toda a realidade epistemologicamente. Uma vez que podemos demonstrar fatos provados em termos de ciência consistente, as proposições da Protoanálise vêm a ser uma parte coerente em uma teoria que leva em conta o total da experiência humana e que assim pode proclamar ser o caminho para a obtenção da totalidade como ser humano, ou iluminação suprema (Teose).

e) Que eles são os guardiões reais da verdade do eneagrama, porque já construíram muito comparado ao pequeno início da Escola Arica e porque eles estão apresentando a sua teoria em um formato científico e humanístico (os psicólogos) ou num formato teológico e religioso (freiras e padres).

e) O que é surpreendente, é que todos os discípulos de Naranjo repetem uniformemente a mesma descrição que fiz para as fixações e também para os eneagramas dos estados mais altos, que atraem mais a fantasia dos padres e das freiras. As descrições são todas consistentes com diferenças muito pequenas, e assim sua origem comum é evidente. Apesar disso, todos eles insistem que apenas as construíram sozinhos e quanto à parte do sistema Arica que estão usando, é o fruto de sua longa experiência e então citam referências assustadoras como “doze anos de leitura” ou tantos casos tratados, milhares e mais milhares. Material grandioso. O que é cômico é que em suas práticas eles não usam o material que apreenderam nas universidades ou em seminários que lhes deram os títulos, mas ao contrário, utilizam o sistema Arica que subitamente se torna deles, que dizem ter desenvolvido na base de um obscuro e limitado princípio dessa teoria, agora tão brilhante e cientificamente apresentada por eles. Quero dizer que é realmente cômico. Em primeiro lugar, que tipo de cientista são eles, que acreditam num sistema que alguém “lhes contou” que consistia em um antigo material Sufi? O que isto implica é simples — todos estes cientistas e teólogos trabalham com base em “uma crença” que transformaram em um “dogma” e, portanto, apresentam algo que não está baseado em uma análise adequada do ponto de vista lógico, epistemológico e ontológico. Nada disso para os psicólogos, padres e freiras, mas “crença” direta como “dogma” puro. Que tipo de cientistas são esses? Que tipo de metafísica e teologia isso implica? Quero dizer, como eles as apresentam categoricamente sem as explicações devidas é apenas uma sopa de idéias incongruentes, mas infelizmente como disse, eles ainda conservam as descrições do sistema Arica como originalmente as apresentei. Isso é o que queria clarificar entre mim e os autores dos eneagramas. Falando concretamente, os autores dos eneagramas partiram do ponto de uma “crença” que transformaram em “dogma”, porque eles o aceitam irracionalmente e por inteiro, sem qualquer análise ou crítica como se isso fosse uma verdade divina, inquestionável e final. Eles apontam uma teoria “Sufi velha”, ou o que seja, como base para construir as suas racionalizações intermináveis e inconsistentes pela simples razão que não apresentaram uma base lógica para elaborar proposições científicas. O trabalho dos autores do eneagrama é claramente anticientífico e sem fundamentação racional, porque está baseado em formulações dogmáticas em oposição ao sistema Arica, que sob qualquer medida, é lógico, científico e está baseado em proposições metafísicas racionais e em uma verdade teológica suprema. Essa distinção é que eu quero tornar clara. A proposição científica do sistema Arica é inflexível, porque ela se baseia em proposições lógicas e estabelece uma abordagem científica para validar e consolidar a classificação, os experimentos e as medições da psique humana (quinto Princípio Arica). A teologia do sistema Arica é baseada na Unidade Absoluta de Deus (primeiro Princípio Arica) que é um ponto que não pode ser transigido porque toda a espiritualidade da Escola Arica depende radicalmente desse princípio:

Unidade de Deus

A Escola Arica declara a Unidade Absoluta de Deus, não com base em fé ou em revelação, mas com base na estrutura inata da mente humana, como analisada pela lógica trialética, que compreende esse primeiro princípio da metafísica como a base de todos os pensamentos e de toda a experiência humana.

Isso quer dizer que é realmente repugnante ler as proposições deturpadas pelos padres e freiras teólogos para servir às suas “crenças” velhas, áridas e subjetivas. Estou dizendo claramente que todo o sistema Arica depende da premissa primordial da Unidade Absoluta de Deus. Sob o ponto de vista Arica, qualquer “crença” anticientífica torna o sistema inútil. Como disse, a imagem de me fazer parecer um “louco místico”, desinformado e obscuro, que não tem idéia de ciência e de teologia, será drasticamente corrigida, porque é claro que os padres, psicólogos e freiras partem do ponto de vista irracional de “acreditar por acreditar” em tudo o que foi proposto nesse material do “velho Sufi”. Isso é “dogma” sob qualquer medida. Por exemplo, podemos ver a total falta de uma base científica ou de uma explanação teológica no livro de Robert J. Nogosek, C.S.C., Nove retratos de Jesus, que do nada nos conta, como uma questão de fato, que “O sistema do eneagrama demonstra que há nove caminhos para expressar o que é um ser humano”. Dessa vez ele não nos conta de onde vem, nem mesmo com a explicação usual que é um material “velho Sufi”, mas ele nos fala diretamente e com grande convicção que “o sistema dos eneagramas demonstra” e que é assim. Isso, eu digo claramente, não tem outra base senão a crença do Padre Nogosek. Ele não nos conta de onde essa idéia vem porque ele não sabe, clara e simplesmente. Ele continua dizendo que: “De repente, porém, nós nos deparamos com o fato de que todos os nove tipos no eneagrama são ‘tipos de pecado’, construídos em razão de um mecanismo de defesa que escolhemos para defender uma compulsão que nos é especial”. Mais adiante ele declara: “Desde que os tipos são diferenciados por compulsões específicas, concluímos que a sua personalidade (Jesus) expressa espontaneamente TODOS OS NOVE TIPOS. Cada tipo é uma forma específica de ser humano. Os nove tipos juntos são a expressão perfeita de sua humanidade. Jesus poderia ser este homem completo. Na verdade ele foi o primeiro a ser inteiramente humano”. Agora e a partir do nada ele atribui uma natureza pecaminosa às fixações. Simplesmente nos conta que essa idéia veio a ele ao conversar com outros padres piedosos. A verdade é que se aceitarmos a doutrina do pecado, como nas antigas religiões Misteriosas, haverá a necessidade de expiação, que pode somente ser produzida por intermédio de rituais e sacramentos, que então necessitaria de uma classe de religiosos especialistas e meticulosos no ritualismo do trabalho sacerdotal. O “pecado” necessita de funções intercessoras de padres que foram consagrados e que agora podem agir em nome de seu Deus, produzindo uma ordem separada e privilegiada de sacerdotes-sacramentais, cujo perigoso status de ordo sacerdotum tem que ser sustentado com o sacerdócio celibatário e com virgens sagradas. Do ponto de vista Arica, não há nada que possa ser considerado como “pecado”, que é aquela velha ilação dos órficos e dos pitagóricos. A Escola Arica considera todas as experiências humanas como “processos”, porque parte de um ponto de vista que está além das considerações sobre o “bem e o mal”, que suportam a teoria do pecado e do dogma da expiação com a necessidade de um padre que representa um Deus entronado em uma igreja. Como podemos ver, isso está em completa contradição com a Escola Arica onde não há “tipos pecaminosos” e todas as fixações são vistas como processos e como pontos de partida para auto-análise, mas como disse nas Cartas para a Escola (dezembro de 1987): “Estar continuamente fixado em somente uma parte de nós mesmos acaba com a nossa possibilidade de crescimento como indivíduos. De forma a tornar-nos responsáveis por nós mesmos num caminho objetivo, em vez de nos mantermos em uma posição unilateral subjetiva, temos que ACORDAR TODAS AS NOVE POSIÇÕES que objetivamente existem em nossa consciência básica e fundamental”. Na Escola Arica as fixações são dissolvidas ao adquirirmos uma compreensão das outras oito posições. Isso é obtido pela limpeza de karma e não pela graça de Jesus ou de outra postura religiosa e dogmática, completamente estranha ao sistema Arica. O Sistema Arica não necessita de expiação do ‘pecado’, intermediação sacerdotal, direitos sacramentais ou dogmas suportados por uma igreja. O sistema Arica é um caminho de auto-realização e um caminho para adquirir Teose (iluminação suprema) nessa mesma vida pelo esforço pessoal do praticante, suportado pela força de uma Escola mística verdadeira e por um ensinamento que prova sua base ontológica para o processo humano, como está claramente observado em Os Cinco Determinantes Supremos Arica (quarto Princípio Arica).

Um outro ponto de contradição com as interpretações dos sacerdotes é que para o sistema Arica nossa vida psíquica depende da polaridade entre o sexo e o espírito. Isso quer dizer que se ainda não processamos e não limpamos nossa vida sexual, a nossa vida espiritual inexiste porque é bloqueada com a sujeira da sexualidade não processada, que se manifesta como um abuso do sexo, de forma desenfreada e pervertida. Do ponto de vista Arica, isso é simplesmente hipócrita, e tentar usar o sistema evitando qualquer conversa sobre sexualidade é irracional, dogmático e contrário a todos os fatos da vida. O que quero tornar claro é que a deturpação feita pelos padres e freiras ao material Arica torna o sistema inútil, porque a deturpação é dirigida para “crenças” suportadas por uma variedade de dogmas impossíveis.

Como podemos ver, é completamente injustificado que a Sra. Palmer insista que “ela (a teoria) foi transmitida para um ser iluminado (eu) por intermédio da intercessão divina (Arcanjo Metatron ou algum outro), e assim não existe dúvida”, e ela também diz: “Ele moveu o eneagrama de um contexto Sufi, de um contexto esotérico Cristão, do contexto de Gurdjieff e adaptou sua ‘nova descoberta’ em um contexto eclético, no contexto de crescimento espiritual de uma nova era”. Francamente, essa é uma forma grosseira e insidiosa de desacreditar a mim e à Escola Arica. Por exemplo, a Sra. Palmer informa-nos que o pagamento do anúncio da Escola Arica na revista New Age foi feito com o propósito “de fazer pensar que Ichazo foi vitorioso”. Ela insiste que não foi assim porque “nenhum dinheiro trocou de mãos”. Isso mostra exatamente a preocupação materialista da Sra. Palmer, porque a Escola Arica processou aos padres e freiras por não reconhecerem a Escola Arica como fonte dos eneagramas que estavam utilizando liberalmente em suas racionalizações sem fim e para proveito próprio. Quando eles reconheceram claramente em frente à Honorável Juíza Mirian G. Cedarbaum na Corte Federal, a Escola Arica considerou que tinha ganho o caso completa e incondicionalmente para qualquer um que tivesse olhos para ler. Exatamente não para a Sra. Palmer, que disse que a Escola Arica havia pedido uma enorme soma em dinheiro, o que é absoluta mentira. O que a Escola Arica queria era que a Sra. Palmer reconhecesse, como os padres e freiras, a fonte do material com que ela brincava como conduzindo sessões de associações livres. Do ponto de vista Arica, o processo à frente do Honorável Juiz Robert P. Patterson, Jr. foi ganho pela Arica total e completamente no momento em que “Palmer não contesta a propriedade e validade dos direitos autorais da Escola Arica”. Para dizê-lo claramente em poucas palavras, a origem das idéias não é disputada pela Sra. Palmer, mas ela afirma com o Juiz Patterson que as idéias são desprotegidas e conseqüentemente podem ser copiadas ou plagiadas diretamente, ou parafraseadas aproximadamente, argumentando que elas são termos comuns de linguagens e clichês. A Escola Arica recorreu dessa decisão, as leis de direitos autorais estabelecem o contrário. Por exemplo, podemos ver na recente decisão do Juiz Robert F. Kelly do distrito leste da Pensilvânia a respeito de um livro e um subseqüente drama documental televisivo: “As leis de direitos autorais não foram decretadas para inibir a criatividade”, o Juiz Kelly escreveu em sua decisão: “Mas uma coisa é inibir criatividade e outra, usar a distinção idéia-versus-expressão como uma coisa semelhante a uma defesa absoluta para sustentar que a proteção da lei dos direitos autorais é negada por qualquer pequena quantidade de remendo sobre a idéia de um outro escritor que resulta numa expressão diferente”. (Veja o informativo comparativo do Instituto Arica, mostrado na página 118 do The Arican: International Journal of Arica Institute, Autum 1991.):

“Em um tempo em que trabalhos dos assim chamados ‘romances factuais’ ou dramas documentais de televisão — que unem eventos históricos e personagens com invenções ficcionais — são cada vez mais comuns e quando acusações de plágio se tornaram freqüentes, o veredicto parece fortalecer as leis de direitos autorais existentes ao afirmar que não é suficiente que a expressão das idéias de um outro escritor seja ligeiramente diferente”.

Eu disse que seria publicada a teoria inteira em um futuro próximo e, enquanto isso, para a Escola Arica é absolutamente necessário clarificar a sua posição diante da massa de autores de eneagramas que fazem uso da doutrina Arica, tornando-a trivial como se fosse um “dogma” Sufi a que se tornaram presos e devotados. Além disso, essas descrições e tipologias triviais e infundadas que apresentam têm uma similaridade acentuada com a astrologia, tornando o sistema superficial e uma fonte para inflar o ego em vez da redução do Ego como a teoria Arica propõe. No outro lado, vemos todos os autores de eneagramas afundados em seu próprio interesse de ganho material, ego-inflação e prestígio, produzindo “onda após onda” de calúnias ridículas à Escola Arica, enquanto se auto-ornamentam, como no caso patético da Sra. Palmer que em um transe de entusiasmo proclamou a si mesma como “A Rainha do Eneagrama!” Por tudo que sabemos, nesse ponto Naranjo, Riso e Nogosek, C.S.C. devem estar se autoproclamando como o Rei, o Imperador e o Papa do eneagrama respectivamente.

Após tudo o que vimos sobre os autores dos eneagramas, a Escola Arica não tem qualquer ilusão sobre a natureza materialista desses autores, mas é importante estabelecer que a Escola Arica é a única fonte de sua teoria. Para tornar possível a realização do objetivo precioso da humanidade, que é transformar-se em um único corpo e em um único espírito na Meta-sociedade, é indispensável que a Escola Arica continue como uma força moral intocável, com claridade de consciência e com senso de finalidade, para que esta realização aconteça pela pressão da realidade sobre a espécie humana em direção à sua própria unidade. Como podemos ler no segundo Princípio da Escola Arica, esta pressão é inexorável, verdadeira, necessária e inevitável.

Como podemos ver, a Sra. Palmer é completamente desinformada sobre a Escola Arica, porque ela pensa que “Análise Trialética” significa observar “as três energias (afirmação, negação e reconciliação) que aparecem nos pontos de choque do diagrama (o eneagrama)”. Para ajudar a Sra. Palmer, a muito bem conhecida Lei da Causação não é um princípio lógico, quer seja da lógica Formal, da Dialética Hegeliana ou da Trialética Arica. A Lei da Causação é analisada pela lógica formal no dilema causa e efeito. A dialética hegeliana a analisa no trilema da tese, antítese e síntese ou positivo, negativo e neutro, ou na “Afirmação Sagrada”, “Negação Sagrada” ou “Reconciliação Sagrada” de Gurdjieff. Na trialética Arica, a causa é analisada no tetralema da ação, reação, função e resultado. As Leis da Trialética não são exatamente a Lei da Causação (ação, reação e neutro), mas a exposição de princípios lógicos de identidade. O que Gurdjieff dava a entender na lei do três, que ele denominou de A Sagrada Lei do Triamazikamno, é o mesmo que a Lei da Causação dos estóicos como apresentado pelo estóico Posidônio, que estava interessado em produzir “Razão Objetiva”, exatamente o mesmo termo de Gurdjieff. Eu espero que a Sra. Palmer não venha a questionar quem veio primeiro. Para os estóicos essa “Razão Objetiva” era o caminho para cruzar o “Raio da Criação” e ascender à esfera do Ogdoat. Como tenho dito, na teoria de Posidônio um homem que não tivesse acordado conscientemente para a realidade das leis cósmicas estava condenado a receber “mecanicamente” a influência dos planetas e a se tornar “comida para a Lua”. Esse é exatamente o mesmo termo que Gurdjieff utiliza na obra História de belzebu. Como os estóicos, ele imaginava o ego como completamente artificial e o chamava de órgão “Kundabuffer”, composto de centenas de “Eus” ou personalidades diferentes. Para os estóicos ou você serve de “comida para a Lua” ou trabalha conscientemente seguindo e aceitando a Providência Divina, pronoia, como encontramos em de Officiis de Cícero, e então ascende através dos planetas até o Sol Absoluto. Gurdjieff nos conta que os planetas são vivos e que “anjos” são gerados no planeta “Modiktheo” e que “eles são responsáveis pelo governo do mundo e que estão próximos à Sua eternidade”. Categoricamente falando, isso é cosmologia estóica em que a alma é descrita como descendo do Sol Absoluto e sendo absorvida pelas vibrações de cada um dos planetas que são vivos e chamados de “arcontes” ou os regentes do mundo, encarregados de seu governo e do seu funcionamento. Essa teoria estóica, que se originou a partir do Timeu de Platão, afirma que primeiro temos que obter êxito em deixar de sermos somente “comida para a Lua” com o auxílio do “sofrimento voluntário” ou a aceitação do destino cósmico imutável e pelo “trabalho intencional” que tem que ser desapaixonado e para beneficiar aos outros. Exatamente a mesma teoria e terminologia que Gurdjieff quer nos passar em sua História de belzebu e, como disse, essas duas idéias mais básicas do Estoicismo são dolorosamente explicadas e obscuramente descritas por Gurdjieff, que tenta explicá-las em tiradas longas e em repetições intermináveis. Por exemplo, podemos ver a profunda falta de compreensão que J. G. Bennett tinha desses dois conceitos básicos, mesmo depois de ter trabalhado com Gurdjieff por tanto tempo, quando ele define “sofrimento voluntário” como “é um sofrimento que um impõe a si mesmo para encontrar alguma coisa. O exemplo típico disso é o atleta que se autodisciplina”, e sua definição de “trabalhos internos” é “agir sem considerar os frutos da ação”, e mais vagamente que “eles estão relacionados com o servir ao futuro”. Se observarmos sem compreender a cosmologia estóica, não notaremos que ela é a fonte dessas “idéias”, em que o cosmo é um organismo vivo e grande, com diversas camadas de matéria ou vibrações que vêm do “Sol Absoluto” e a ele retornarão somente se nos “tornarmos conscientes”, salvando-nos de nos tornarmos “comida para a Lua” e então transcender o tempo, o impiedoso “Heropass” de Gurdjieff. Gurdjieff colocou o tempo, “Heropass”, além do “Sol Absoluto” na mesma forma que a heresia Zurvanita em que o tempo está além do Absoluto. J. G. Bennett acredita que isso se originou com a “Fraternidade Sarmoung” que Gurdjieff encontrou na Ásia Central e que mais tarde se tornou “O Caminho dos Mestres” Sufi, ou o Khwajagan. Isso deu uma fonte Sufi às “idéias” de Gurdjieff. Como disse, isso é completamente impossível por causa da cosmologia materialista de Gurdjieff.

Por outro lado, os estóicos herdaram a idéia do tempo além do mais puro éter-fogo de Heráclito (500 a.C.), que envolvia o “ser” do Absoluto descrito por Parmênides (500 a.C.). Para os estóicos, o tempo era o grande enigma do Universo. Era assim para eles bem como para as doutrinas anteriores de Pitágoras e dele diretamente para o Egito na forma da Esfinge (outra das preocupações de Gurdjieff) da qual foi dito que lhe devoraria — “comida para a Lua” — se não descobrisse o significado dela, mas se descobrisse o seu significado, ela lhe acompanharia durante toda a eternidade como uma guardiã. Na cosmologia estóica-gurdjieffiana há uma interação constante de energias entre Deus mesmo e Sua criação inteira. Como disse antes, do ponto de vista Arica, essa é uma cosmologia ingênua e primitiva dos Magos astrólogos da escola órfica, pitagórica e estóica, que transmitiram esse conhecimento para as seitas gnósticas com sua doutrina do “Criador e seus Arcontes” e por intermédio de Próclus e Iamblicus (400 d.C.) essa doutrina termina em Pseudo-Dionísio (500 d.C.), que foi considerado o primeiro grande filósofo escolástico e, por meio dele, chegando às igrejas Católica e Ortodoxa. Para essas doutrinas a alma está aprisionada ao corpo. Essa idéia de estar em uma “prisão” de onde necessita escapar é utilizada novamente por Gurdjieff, e podemos encontrar a mesma descrição, de um prisioneiro que necessita escapar com a ajuda de outros prisioneiros e com o conhecimento do que é externo, nos catecismos ou manuais estóicos, onde está revelado como agir conscientemente por meio dos significados do kathekonta. Essa noção também pode ser encontrada no Encheiridion de Epíteto (O Manual de Epíteto).

Como disse, o que é central para as idéias de Gurdjieff e para os antigos estóicos é o seu pânico total em morrer sem um “corpo astral” (corpo Kesdjan). A isso Gurdjieff costumava se referir ao dizer algo como “morrer como um cão”. De fato, os seus associados mais próximos nunca pareceram compreender essa idéia, e ela só se torna clara quando lemos Posidônio, que explica que não devemos morrer como cachorros “uivando para a Lua” ou ser “comida para a Lua” devido à falta de um “corpo astral” bem desenvolvido.

Eu vi a revista Gnose (verão de 1991) e Gurdjieff é apresentado como essa figura única, incrível e original. “Ele foi, por qualquer medida, um dos homens mais notáveis que a raça humana produziu”. Mesmo Cláudio Naranjo afirma “Um indivíduo singular (Gurdjieff) conseguiu provocar no mundo europeu e americano um choque talvez mais significativo do qualquer outro, até a onda cultural no início dos anos sessenta”. E ele também nos conta acreditar que “o ensinamento de Gurdjieff reflete um veio nativo do sufismo do norte da Ásia Central e menos conectado ao Islamismo Ortodoxo do que as versões mais sulistas”. Ele está justamente repetindo o mesmo erro de J. G. Bennett e também não nos conta sobre suas fontes.

Como disse antes, obter liberdade por reconhecer e compreender as leis cósmicas do “Raio da Criação” e a Lei da Causação (a lei dos três, Triazimakamno) é o ponto de vista da Religião Astral desde os Magos até a Igreja Católica. Em todas as suas diferentes formas, essa cosmologia desmoronou com Copérnico e, como disse, um Deus que depende de intercâmbio de energias com toda a sua Criação é uma concepção materialista que é completa e absolutamente repugnante para a teoria e o sistema Arica que se baseiam na Absoluta transcendência de Deus (além da matéria), como proposto na Declaração Arica da Unidade de Deus, que é a doutrina primordial da Escola e o seu Primeiro Princípio.

Como sabemos, Gurdjieff nunca forneceu as suas fontes e ele descreve a si mesmo como alguém completando o seu “corpo astral” (corpo-Kesdjan) ou no quinto dos sete níveis possíveis. Por tudo o que sabemos, nenhum de seus discípulos tornou-se iluminado, mas sim todos frustrados e desapontados, e ele mesmo não pareceu ter chegado à paz final da iluminação, porque aí nós temos apenas poucas possibilidades. Se ele foi iluminado, não ensinou a ninguém a alcançar esse estado, ou então ele não sabia como ensinar. Talvez mais simplesmente ele mesmo não alcançou esse estado porque, em seu último livro A vida somente é real apenas depois, quando “eu sou”, sua explicação do “Eu” real ausente que, como ele diz, pode somente ser formado ao trabalhar nos três centros simultaneamente, é uma posição muito primária de auto-observação, que ele não desenvolveu e todas as suas “idéias” são percepções pessoais em vez de instruções claras e precisas, como encontramos nas tradições verdadeiras e comprovadas.

A doutrina mais importante nas “idéias” dos Estóicos e de Gurdjieff é acordar para escapar da “influência” mecânica dos planetas. Para esse propósito era necessário conhecer as leis cósmicas, formadas pelo “Raio da Criação” e a trípode Lei da Causação, e produzir o despertar que muda a “vontade mecânica” de nossos desejos mais baixos em “desejo intencional” para aceitar a Providência Divina, pronoia e então superar o tempo ao formar um “corpo astral” e, mais adiante, um “corpo essencial” com a matéria sutil das “impressões conscientes” ou o material verdadeiro da Razão Divina Objetiva. Para produzir auto-observação seguindo essa teoria eram necessários esforços fenomenais e “intencionais” para nocautear nossa intelecção habitual, no fim do que seria possível obter “impressões” diretas ou kataleptike phantasia, ou então pela auto-observação constante da influência “planetária” principal e mais forte que dá a cada indivíduo a característica muito especial de sua personalidade ou “feição” especial. A astrologia da antiguidade podia elaborar mapas astrológicos pessoais com esse objetivo, enquanto Gurdjieff baseou seu ponto de auto-observação em alguns defeitos pessoais importantes e óbvios, conhecidos como “característica principal”. Isto é dizer que seu método de auto-observação nunca foi claro e era principalmente uma expressão artística do poder de observação de Gurdjieff, que conseguia encontrar o que era ridículo em todos os seus amigos. Naturalmente, esse é um método muito pobre de observação, que vem do nada e não tem base científica ou fundamento. Conseqüentemente, não funciona ou então, caso funcionasse, Gurdjieff e seus seguidores teriam obtido alguns resultados ponderáveis. A importância da auto-observação é uma outra idéia universal, e no sistema Arica é baseada no grande método de auto-observação exposto pelo Senhor Gautama na doutrina das “Quatro Plenitudes da Mente” no Sutta Mahasatiphatthana do Digha Nikaya, ou como auto-observar nosso corpo, nossas emoções, nossa mente e os objetos da nossa mente. Mas o sistema Arica, por ser fundado sobre as descrições da psique humana inteira em seus nove constituintes, observa que os três instintos que suportam a vida se transformam em nove fixações psicológicas possíveis, uma das quais é sentida como um ponto fraco que tem que ser defendido para nossa própria sobrevivência (mecanismos de defesa). Esse ponto fraco evolui para uma característica de um tipo de personalidade fixada, que é fácil de observar porque todos seguem o padrão e as descrições dos eneagramas correlacionados do sistema. Por essa razão, na teoria Arica as fixações são significativamente fundamentais e centrais para auto-análise e a auto-observação. Com o método das fixações Arica é possível obter auto-observações prolongadas, bem como relembrar todas as nossas experiências passadas, clarificando nosso carma inteiro ao compreender o papel que elas jogam no desenvolvimento de nosso ser, o que é observado como uma parte integral da auto-realização (quinto Princípio Arica).

Em resumo:

1-Em qualquer sentido, a teoria e o sistema Arica não derivam das assim chamadas “idéias” de Gurdjieff-Ouspensky do Quarto Caminho porque sua cosmologia materialista, muito antiga e ingênua na qual há épocas “que Deus tem que pedir por ajuda”, é uma “crença” completamente repugnante e materialista diante dos Cinco Princípios da Escola Arica.

a) Eu não recebi a teoria Arica de uma seita Sufi obscura ou de qualquer outra. A teoria e método Arica são direta e completamente produzidos e apresentados exclusivamente por mim. E eu sou a única fonte da teoria e do método Arica;

b) Como provei, os autores dos eneagramas baseiam suas teorias na aceitação cega da formulação de uma suposta seita Sufi transformando essa aceitação em princípios dogmáticos de crença e, conseqüentemente, sem necessidade de uma análise crítica por meio de uma formulação lógica e científica. Por outro lado a Escola Arica propõe uma base lógica e uma descrição sistemática e científica da psique humana, bem como desenvolve um método completo para descrever a psique humana com sua epistemologia, ou teoria do conhecimento; sua psicologia, ou o mapa da psique e de suas funções; sua ontologia, ou a concepção da Realidade Suprema e sua teologia com a concepção da Realidade Transcendental;

c) Eu não tive visões de arcanjos voadores, Metatron ou o Green Qu Tub, e o sistema e método Arica é o produto do trabalho de minha vida inteira.

d) Eu nunca tive uma ruptura com Cláudio Naranjo e nunca pretendi guardar em segredo a teoria e o método Arica, agora próximo de publicação, pois tenho feito palestras públicas sobre o sistema nos últimos 25 anos na América do Sul, nos Estados Unidos e na Europa.

e) As duas proposições, dos psicólogos, das freiras e padres, são contraditórias com o sistema Arica. Esse é o caso dos psicólogos em razão de sua abordagem anticientífica e sem método para a matéria e dos teólogos (padres e freiras), porque fazem uma mixórdia da teoria Arica com vistas a acomodá-la em suas “crenças religiosas”, as quais estão fundamentadas em muitos dogmas que não podem ser provados.

Sobre a Sra. Palmer ser “herética”, o Juiz Patterson disse, ela apenas sustenta uma posição muito diferente e certamente ela tem direito a isto, mas não há dúvida, como ela claramente insiste em dizer, que a origem de suas elucidações são estritamente baseadas na Escola Arica. De fato, a Escola Arica não é dependente de qualquer outra teoria.

Por alguma razão de nosso tempo o plágio se tornou uma prática corrente e, em razão das necessidades frenéticas da televisão, com a sua necessidade infinita de idéias novas para mover seus moinhos, que se tornaram como uma fábrica de produtos em linha, como na indústria, qualquer empresa sente-se livre para roubar o concorrente sobre qualquer circunstância com o único propósito de ganhar o mercado. Essa é uma prática tão comum, que as pessoas se sentem desconfortáveis quando alguém fala de plágio. É assim como a atitude do “qual é o problema, deixa de ser um bebê chorão”, mas isso não é o problema com o material Arica, porque o que está em jogo é o fundamento verdadeiro para nossa ciência, para a nossa evolução espiritual e para a realização final, o único estado que pode ser qualificado como completamente humano, conhecido na teoria Arica como Teose (iluminação suprema).

Como pudemos ver, há uma conspiração entre os autores do eneagrama e alguns da imprensa que estão interessados em ratificar as versões plagiadas desses autores. Isso me lembra a claque, ou a turba paga, que segue as ordens de aplaudir ou vaiar reconhecendo ou desacreditando autores e compositores. Nós todos lembramos La Sacre de Printemps de Stravinski, a qual foi vaiada até a morte e difamada por uma claque paga. Mas como bem sabemos, claques não fazem história, somente a verdade a faz. A prova é que ainda podemos ouvir a La Sacre.

Eu tinha que dar essa explicação em razão da necessidade que a Escola Arica tem de ser clara sobre suas fontes e sobre qual é o novo aporte do ensinamento Arica em direção ao caminho da iluminação suprema. A Escola Arica sustenta que esse é um caminho novo para obter o Estado Supremo (Teose). Conseqüentemente, sua relação com outros caminhos verdadeiros tem que ser claramente exposta e delineada. A Escola Arica, como uma verdadeira Escola mística, apóia-se no fundamento da verdade e do método objetivo (quarto e quinto Princípios Arica) que são capazes de produzir a libertação total nessa mesma vida. Ser absolutamente claro nesse ponto é essencial, porque significa o fundamento moral da Escola Arica como Escola Mística.

Atenciosamente,

Oscar Ichazo

 
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